bernardo kucinski

Entrevista: Bernardo Kucinski no time da ficção policial


DSC_0088Quando se passa dos 70, a maioria das pessoas procura se abrigar sob as marquises para evitar a chuva. Alguns – teimosos ou inquietos – simplesmente decidem atravessar a rua a despeito da água, vento e dos perigos da enxurrada. Bernardo Kucinski é do segundo time.

Jornalista com experiência internacional, professor aposentado da mais importante universidade do país, consultor para assuntos midiáticos da presidência da República, ele já havia feito de tudo quando se enveredou para a ficção. Em 2011, aos 74 anos, lançou “K.”, romance com memórias familiares da ditadura, que o catapultou para o restrito clube da literatura nacional. Editado inicialmente pela minúscula Expressão Popular, esgotou-se nas livrarias, foi finalista de prêmios importantes, relançado pela Cosac-Naify e exportado para outros mercados. Na sequência, vieram “Você Vai Voltar Pra Mim” (contos) pela mesma editora, e “Alice”, pela Rocco. Seus livros já contam com traduções para o espanhol, catalão, alemão, inglês e hebraico. Versões para o italiano, japonês e francês saem este ano.

Bernardo – que literariamente assina como B.Kucinski – não dá sinais de cansaço. Nesta entrevista exclusiva para o literaturapolicial.com, ele continua desafiando a chuva.

 

Que papel tem a ficção policial na literatura contemporânea?
Quem sou eu para responder? Falo apenas como leitor eventual. O que eu noto de novidade é o recurso ao gênero policial, ou à variante em que não há um detetive ou crime a elucidar mas há suspense, por parte de autores já consagrados como novelistas, romancistas e ensaístas. É o caso de “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, um acadêmico, de “O homem que amava os cachorros”, do [Leonardo] Padura, um historiador, de “Trem Noturno para Lisboa”, de [Pascal] Mercier, um filósofo. É quase como se estivesse se formando um novo gênero que se apoia no suspense, mas não se limita ao objetivo central de entretenimento das boas histórias policiais, aquelas que a gente devora nos aeroportos, torcendo para  o avião atrasar um pouquinho mais.

Vamos voltar à recorrente discussão (bizantina, é verdade!) sobre a importância da ficção policial. Há quem ainda insista em dizer que se trata de uma literatura menor. Que argumentos você usaria para derrubar essa ideia?
Acho que não de se deve comparar dessa forma. Não há comparação possível entre uma novelinha de suspense com o advogado Perry Mason e o “Guerra e Paz”, de Tolstoi. Cada coisa é uma coisa. Eu não levaria “Guerra e Paz” para ler numa viagem de avião. Dentro de cada gênero, há obras com valor literário, outras sem valor algum. O gênero policial presta-se acima de tudo ao entretenimento, esse é seu objetivo. É bom quando atinge esse objetivo, sem precisar ter necessariamente valor literário. Entretanto há muitos autores de novelas policiais que atingiram excelência literária, cujas narrativas, sem prejuízo do entretenimento, mergulham em dimensões mais complexas da vida e cuja escrita é literária. Por exemplo, Simenon ou Ellery Queen. No outro extremo está a maioria, como Rex Stout ou Agatha Christie, que deliberadamente estão dizendo o tempo todo: “Veja! Isto é um fingimento, é  novela policial, não levem a sério! Esses tipos extravagantes e cheios de manias não existem, é para a gente se divertir um pouco”. Eu me divirto enormemente com as falas do Goodwin, nas novelas do Rex Stout, sabendo que tudo ali é bobagem, até mesmo como trama detetivesca. Entre esses dois extremos tem muita coisa com boa trama, boa escrita e conteúdos adicionais, como o italiano Camilleri que se atém à função principal de nos divertir com um suspense e um enigma, mas o faz com aportes sociológicos e históricos; o espanhol Montalbán, com aportes políticos; o boliviano Gonzalo Lema, com seu detetive Santiago Blanco, o arquétipo do policial latino americano que mal se distingue dos bandidos e corruptos que investiga.

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“Levo sempre uma caderneta e anoto histórias e causos que ouço por aí. Muitas vezes, induzo a pessoa a contar a sua história. Todos querem contar sua história e poucos têm essa oportunidade. Meu forte é o conto.”

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Não se pode dizer que o Brasil tenha uma tradição literária no gênero policial. No entanto, nas últimas duas décadas, tem crescido a produção na área, e a crítica e o público têm demonstrado mais interesse por isso. Como você avalia a narrativa policial nacional?
Confesso que conheço pouquíssimo. É uma falha grave que pretendo corrigir. Só li alguma coisa do detetive Espinosa. Vou começar pelo Loyola Brandão, que já comprei. As respostas às próximas perguntas talvez expliquem o porquê dessa falha.

Embora a sua estreia tenha sido com “K.”, um romance de caráter mais histórico e memorialístico, sabe-se que você despertou para a literatura com uma novela policial, “Alice”, recém-publicado. Você optou pelo gênero de forma consciente? O que o levou a essa escolha?
De fato foi uma escolha. Eu pensava em fazer uma crítica da vida acadêmica no Brasil a partir de experiências concretas, em especial denunciar a apropriação do trabalho feminino pelos “machos” da academia. E outras malandragens. Hesitava entre um Trabalho de Conclusão de Curso por algum aluno sob minha orientação, ou uma reportagem do gênero jornalístico.  No retorno de uma viagem a Israel, li uma novela policial da já falecida Batya Gur, “Murder in the Kibutz” (“Crime de morte no Kibutz”), na qual, fiel ao seu estilo, a pretexto de elucidação de um crime, ela faz toda a sociologia do Kibutz, seu histórico, sua decadência, seus conflitos internos, tudo. Então, decidi: vou fazer a crítica da universidade na forma de uma novela policial. Assim, não tenho que provar nada, não preciso atribuir,  nem ter nota de rodapé e ainda pode resultar divertido. Simplesmente postulo. No avião mesmo, defini a vítima, quatro suspeitos (não gosto mais do que quatro numa novela policial), cada qual portador de uma questão que eu queria suscitar. Chegando a São Paulo, escrevi com enorme facilidade. Nunca antes havia escrito ficção. Daí a importância de “Alice” na minha tardia carreira literária. Saiu com muitos defeitos, mas saiu fácil, em quatro semanas. Críticas aqui, críticas ali. Deixei-a de lado. Mas, empolgado pela facilidade com que a escrevi, fui escrevendo contos e mais contos, e assim saiu “K.”  Só depois de “K.” voltei-me a “Alice” e a consertei para publicação.

Quais são as suas referências neste estilo? Isto é, que autores ainda o fazem atravessar a madrugada para chegar à última página?
Eu li muito em toda minha vida, mas só descobri a novela policial nos anos 60 e 70, quando já estava nos meus vinte e cinco  anos e se tornou coqueluche no Brasil a revista “Mistério Magazine”.  Seus contos eram sua maioria curtos e de uma grande variedade de autores, alguns deles  consagrados. Porque “Mistério Magazine” era tão lida justamente na época pré e durante a ditadura deve ter algo a ver com o gênero. Li em algum lugar que os pocket books americanos de suspense tornaram-se populares a partir da I Guerra Mundial, lidos avidamente pelos soldados. O destino me levou depois a Londres, onde vivi quatro anos, a partir dos quais passei a ler muito em inglês. Quase que só em inglês. Descobri, então, os autores americanos no original, como Dashiell Hammett e Eric Stanley Gardner e os fui devorando. A linguagem  do conto policial americano é de altíssima qualidade, pela concisão, ironia, fluência, expressividade. De volta ao Brasil, e como viajava muito, passava nos sebos à busca dos pocket books americanos para ler no avião. Me entupi dessas novelinhas ao ponto de já não saber se já tinha lido determinada novela ou não. Até recentemente ainda tentava encontrar nos sebos algum velho exemplar do “Mistério Magazine”…

Como é o cotidiano do escritor B.Kucinski? Você tem um método de escrita?
Um arremedo de método. Levo sempre uma caderneta e anoto histórias e causos que ouço por aí. Muitas vezes, induzo a pessoa a contar a sua história. Todos querem contar sua história e poucos  têm essa oportunidade. Meu forte é o conto. Em geral, a inspiração surge durante um concerto de música clássica. Vou a eles com esse propósito principal e sento-me num lugar que receba alguma iluminação. De repente, em meio à profunda concentração do concerto, surgem as primeiras linhas do conto. Escrevo. De volta à casa, escrevo no computador, em geral sem ler  o que havia escrito no concerto. Procuro reservar as manhãs para escrever. À tarde, pipocam as demandas burocráticas e não dá mais. Às vezes, tarde da noite, retomo. Meus melhores contos são os que saem de uma vez só, sem ter que corrigir.

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“Tenho uma novela de suspense pronta, que chamo provisoriamente “Júlia”, mas sem detetive nem propriamente um crime a elucidar. É uma novela de suspense, com fundo político, um pouco na linha do espanhol Manuel Vasquez Montalbán.”

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Uma boa história de crime deve conter que elementos?
Deve começar com um bom cadáver, um morto em circunstâncias misteriosas. Deve ter um detetive sagaz e extravagante. Um conjunto de indícios apontando para um suspeito que afinal não será o culpado e para um segundo suspeito, diversionista, que também não será o culpado. A trama dever ser verossímil e à prova dos nove. Surpresa no final, mas não absurdos. Essa é a novela policial que eu gosto.

O que o leitor de ficção policial não pode deixar de ler e conhecer?
Repito que não sou especialista. Para começar, Simenon, que está sendo republicado no Brasil em livrinhos pequenos. Depois, Ellery Queen, Patrícia Highsmith, Rex Stout, o Camilleri, que também está saindo em português, sei lá, são muitos. O problema, realmente, é a precariedade da tradução. Por causa disso eu não leio mais essas novelas policiais traduzidas das nossas coleções noir. Abram o livro ao acaso e leiam alguns parágrafos, se estiver macarrônico, não comprem. Ao contrário do que se pode pensar, o estilo é componente essencial da novela policial. Se a tradução não tem estilo, evitem.

Podemos esperar mais novelas policiais assinadas por B.Kucinski? O que está preparando no momento?
Já escrevi uma novelinha com o mesmo detetive Magno, que se chama “Mataram o presidente”, uma paródia política, publicada na forma de folhetim no jornal ABCD maior, de São Bernardo. Tenho uma novela de suspense pronta, que chamo provisoriamente “Júlia”, mas sem detetive nem propriamente um crime a elucidar. É uma novela de suspense, com fundo político, um pouco na linha  do  espanhol Manuel Vasquez Montalbán. E tenho prontos cerca de 50 contos que quero publicar de preferência de uma vez só. Mas se não der, na forma de uma série de livros mais magros, tipo “Os Contos Eróticos de B.Kucinski”, “Os Contos Políticos de B.Kucinski”, “Os Contos do Absurdo de B.Kucinski”, “Os Contos Judaicos de B.Kucinski” e assim por diante. Também tenho planos de uma novela policial típica com o meu detetive Magno, inspirada num crime hediondo acontecido no interior de São Paulo.

(Imagens: Acervo pessoal do autor)

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