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The Killing, a próxima série que você precisa maratonar


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Por Josué de OliveiraThe Killing teve vida curta: apenas quatro temporadas, veiculadas entre 2011 e 2014. Foi um trajeto emocionante, e não falo apenas dos mistérios investigados por Sarah Linden (Mireille Enos) e Stephen Holder (Joel Kinnaman), detetives da Polícia de Seattle e protagonistas da história. Além das reviravoltas da trama, os fãs também eram surpreendidos pelos cancelamentos da série, que foi descontinuada não uma, mas duas vezes.

Mas vamos do início.

(E desde já, um aviso: é impossível falar sobre a série sem alguns pequenos spoilers; mas juro que não farei nenhuma grande revelação, podem ficar tranquilos, apenas o necessário para uma análise suficientemente boa.)

The Killing é uma refilmagem. A original, Forbrydelsen, é dinamarquesa. A versão americana foi desenvolvida por Veena Sud, que já tinha experiência com seriados policiais — foi uma das produtoras de Cold Case (“Arquivo Morto”, no Brasil) –, e veiculada pela emissora AMC e pela Netflix. A primeira exibiu as três primeiras temporadas; a segunda ficou com a quarta e última.  

Desde o início, a abordagem foi na contramão da maioria das séries policiais americanas atuais. Em vez de episódios fechados, cada um apresentando a investigação e a resolução de um caso, como CSI, Castle e Criminal Minds, The Killing apostou num arco longo, que duraria a temporada inteira, focando na investigação de um único caso.

“Quem matou Rosie Larsen?”, perguntava o cartaz da primeira temporada. Era este o mistério nas mãos de Linden e Holder.

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Trama envolvente, atmosférica; personagens complexos, bem trabalhados, humanos; um forte senso de antecipação a cada novo episódio. Tudo parecia bem para The Killing… até que veio o season finale (o último episódio da temporada), e a pergunta não foi respondida. O assassino de Rosie Larsen não foi revelado.

A justificativa dos produtores foi o número de episódios da temporada, poucos para comprimir toda a história. Assim, a resolução da trama ficou para o segundo ano, que, aí sim, trouxe todas as respostas ansiadas pelos fãs. A resolução foi satisfatória, consistente com a trama e a natureza dos personagens e, como tudo na série, muito melancólica.

A audiência, no entanto, caiu entre as temporadas, levando a emissora a cancelá-la.

Os produtores ofereceram a série a outros canais e a Netflix entrou na conversa. A AMC acabou voltando atrás e The Killing teve, assim, sua terceira chance.

Uma trama nova, relacionada a um caso no qual Linden já havia trabalhado (e que parecia solucionado), teve início, trazendo um turbilhão à vida dos protagonistas, agora às voltas com um serial killer. A temporada foi ainda mais tensa que as anteriores, com uma história fechada, mas mantendo a porta aberta para um retorno. O final em si — desconfortante, pesado — permitia uma continuação quase que imediata.

Mas, novamente, a audiência decepcionou. Resultado: segundo cancelamento.

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Ainda bem que existe a Netflix. O serviço de streaming trouxe The Killing de volta uma segunda vez, para uma temporada final, bem mais curta (seis episódios, contra treze em cada temporada anterior), em que Linden e Holder investigam o assassinato da família Stansbury. Apenas Kyle, o filho mais velho, sobreviveu — e não se lembra de nada. Enquanto investigam, os detetives precisam ainda lidar com as consequências de suas ações ao final da terceira temporada.

E, assim, uma das maiores séries policiais dos últimos anos chegou ao seu final.

The Killing merece ser assistida por apostar praticamente todas as fichas em personagens. Sarah Linden e Stephen Holder são pessoas difícieis que não se entendem com o mundo, e jamais desistem de lutar contra ele. Em suas mãos, a missão de reestabelecer a ordem perturbada por crimes bárbaros, mas a ordem de suas próprias vidas parece constantemente ameaçada.

Sarah foi uma criança-problema: órfã, passou por diversas famílias, sempre com uma postura rebelde. A figura materna mais próxima que tem é a assistente social Regi, que a acompanha desde a infância e, mesmo terna e dedicada, acaba por lembrá-la de suas feridas, do passado conturbado, da vida familiar que nunca teve. Investigar crimes é a forma que encontrou de dar algum sentido ao mundo, mas o que deveria ser um trabalho se converteu num vício, atravancando suas relações interpessoais, sobretudo com Jack, seu filho adolescente. Mesmo sabendo que a profissão é a principal responsável por não deixá-la levar uma vida normal, a sina de Sarah é prosseguir tentando ter as duas coisas.

O problema de Holder também é o vício, mas, no caso dele, algo mais óbvio. A expertise das ruas não foi a única marca trazida de seus dias como investigador da Divisão de Narcóticos; de lá, ele também trouxe uma dependência química que abalou sua relação com a irmã e o sobrinho, e que ele tenta expurgar por meio de grupos de ajuda. Por trás da fachada cínica,  das roupas de rapper e da atitude desafiadora, esconde-se um homem lutando para não ser engolido pelos próprios impulsos. O principal desafio de Holder é não sucumbir mais uma vez, mesmo com tão pouco a se agarrar.

O que a série tem de mais precioso está na interação entre essas duas pessoas permanentemente sabotadas por aquilo que são. Elas incorporam o verdadeiro dilema de The Killing: a complexa relação entre reconhecer quem você é e, ao mesmo tempo, não aceitar ser reduzido a isso. São uma mulher e um homem sem ilusões acerca de si mesmos, apalpando no escuro em busca de verdades inconvenientes e tentando preservar alguma retidão num mundo povoado por assassinos cruéis, predadores de crianças e policiais corruptos.

É no atrito entre suas personalidades fortes, combativas, mas semelhantes (por mais que não gostem de admitir isso), que ambos vêm a reconhecer mais de suas virtudes e mazelas, e na amizade cheia de idas e vindas, feridas em comum e conflitos, que encontram onde se escorar — e isso sem jamais soar meloso ou piegas.

The Killing pode ser apreciado por suas tramas dinâmicas e envolventes; pelas reviravoltas que não soam forçadas, mas sempre orgânicas à narrativa; por sua pegada séria e realista. Mas, em minha opinião, é a força de seus protagonistas que nos faz avançar para o próximo episódio, ansiosos por descobrir como eles vão lidar com a loucura do mundo.

Se você está atrás de uma próxima série para maratonar, fica a minha indicação. E aproveite, pois as quatro temporadas estão disponíveis na Netflix.

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(Imagens: Divulgação, Giphy)

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11 respostas »

  1. Pingback: Sagar Newsline
  2. Pingback: Sagar News Post
  3. Eu tenho verdadeiro fascínio dessas personagens! Linden e Holder foram marcantes pra mim. O que me chamou muito atenção em The Killing foi a ausência de apelos estéticos na Sarah. Ela era pura obstinação profissional, mas tinha certa apatia no lado pessoal. A cumplicidade entre os dois é algo incrível, genuíno! E o final, então?! Achei perfeito, na medida!

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  4. Amei o retorno dela para ele.
    Ela desprovida de vaidade, sem maquiagen ou truques para tentar seduzi-lo, apenas o reconhecimento de que eram duas pessoas com peculiaridades próximas e estavam intimamente interligados por uma lealdade e amizade que só a distância os fez ver.
    Torço por mais episódios.
    Quero ver esse relacionamento trazendo alegria aos dois e colocando a casa em ordem.

    Curtido por 1 pessoa

  5. Gostei muito da série, que foge do padrão americano de velocidade a ação. O final é inusitado e inteligente. Agora, a série dinamarquesa é imbatível: personagens difíceis, tensão bem elaboarada

    . Enfim, marcante.

    Curtido por 1 pessoa

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