Pelos bigodes de Poirot! A arte não pode ser limitadora

Por Raquel de Mattos – Num passado bastante recente, parece que a BBC “descobriu” que Agatha Christie também pode ser adaptada para as telinhas e que nem só de Sherlock vive a literatura policial britânica.

Com isso em mente, a produtora resolveu adaptar algumas obras da autora (a cada Natal, diga-se de passagem) e em 2015 começou com… E Não Sobrou Nenhum, da obra homônima, um dos seus maiores sucessos.

 

Cena de E Não Sobrou Nenhum, minissérie da BBC. (Imagem: Divulgação)

 

A minissérie foi feita em 3 episódios e a produção foi um sucesso. Tanto que, nos anos seguintes, eles emplacaram nada menos que três outras histórias (Testemunha da Acusação, duas histórias de Tommy e Tuppence e ano passado lançaram Os Crimes ABC, com John Malcovich como Poirot) e já se preparam para o lançamento de E No Final, a Morte – uma das obras menos conhecidas e adaptadas de Dame Christie, mas não menos fenomenal (afinal se passa no antigo Egito, por favor!!!). Agora a pergunta que fica: Por que eles resolveram “ressuscitar” a autora através de suas obras? Porque vende! É simples assim.

Agatha é a autora mais traduzida do mundo e não é à toa. Eu mesma compro livros dela, sempre. Já li todos e tenho várias edições de uma mesma história. Não precisamos ir muito longe para ver que, inclusive, a autora Sophie Hannah obteve autorização para trazer Hercule Poirot de volta à vida.

No final de 2017, um dos livros mais conhecidos dela foi adaptado pela terceira vez para o cinema. É claro que estamos falando de Assassinato no Expresso do Oriente, de 1934 – já tendo Hercule Poirot sido interpretado por Albert Finney (falecido em 8 de fevereiro) e Sir Peter Ustinov – e agora produzido, dirigido e estrelado por Kenneth Branagh, que é muito competente e famoso por adaptar obras de Shakespeare para o cinema e o fez muito bem.

Eu sei que muita gente vai discordar de mim quanto à atuação de Branagh no papel de Poirot, por causa de seus extravagantes e exagerados bigodes. Mas vamos pensar um pouco:

 

É realmente a característica física que importa no personagem? Ou a atuação, a vida que ele dá ao nosso querido belga (ou a qualquer outro que ele porventura adapte)?

 

Também sei que a história em si tem alguns desvios da original (por que Pilar Estravados está naquele trem, se o que ela pegou era em O Natal de Poirot?), mas nada que interfira no brilhantismo da história. Afinal são coisas diferentes! Literatura é uma coisa, cinema é outra!

Vários autores já se pronunciaram sobre essa questão, acerca de adaptações de seus livros. Eu até entendo, em certas medidas, que não é muito confortável vermos quem amamos de uma forma tão diferente do que o que a gente idealiza, mas gente, isso é uma prisão!

 

Cada um é livre para interpretar seu amor da forma que lhe convir. Não vai agradar todo mundo? Claro que não. E é para isso que serve a arte. Para que nos surpreendamos.

 

A ficção é que permite que a imaginação possa ter as tais asas. A arte não é e não pode ser limitadora. E o importante de fato é a história, as características mentais e morais do personagem. E isso sim pode ser debatido.

Como eu disse, fiquei um pouco cismada com algumas atitudes do Poirot do Branagh, achei meio fora de contexto, mas ele é bom. Esqueçam o bigode. Se querem ver o danado do bigode do jeito que Agatha Christie escreveu, sugiro assistirem a série Poirot, com David Suchet – que é um Poirot sem tirar nem pôr (desculpem o trocadilho!).

Quanto ao importante ser a história, me digam com sinceridade: vocês amaram ou não o Sherlock, da BBC (que se passa no século XXI)? Eu amei. Não vi protestos sobre Watson ser uma mulher em Elementary. Claro que não, porque não tem problema. Então, por que Sherlock pode e Poirot não pode? Pode isso, Arnaldo? Claro que pode!

Mas voltemos à nossa querida Agatha, pois é ela a grande dama do crime! Sim, estou super empolgada para ver todas as histórias dela se transformando em filmes e séries e tudo o mais que eles quiserem fazer. Quero poder ouvir em todo canto: “mais oui, mon ami” ou “use suas células cinzentas” e todas as outras frases de Poirot (e por que não “a natureza humana nunca muda”, de Miss Marple e coisas de Tommy e Tuppence também).

Vamos mostrar que amamos a nossa escritora favorita. Vamos comprar livros, fazer camisetas e canecas e, acima de tudo, vamos ver os filmes, sem paixão por causa de bigodes, ok? Conto com vocês para colocar Mrs. Christie no topo de novo! #queremosmaisAgathaChristie

E para encerrar, uma frase que li do Renato Hemsdorff, do site AdoroCinema: “Adaptar é trair com amor”! (@renatoherms)

Aguardem uma resenha de E No Final, a Morte! Abraços literários.

Raquel de Mattos

Carioca aquariana da gema, museóloga em Barretos (SP). Fã de Agatha Christie, descobriu diversos autores fantásticos ao longo da estrada da literatura policial. Ama café, livros e chocolate e é fácil de ser agradada!
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Raquel de Mattos

Carioca aquariana da gema, museóloga em Barretos (SP). Fã de Agatha Christie, descobriu diversos autores fantásticos ao longo da estrada da literatura policial. Ama café, livros e chocolate e é fácil de ser agradada!

2 comentários em “Pelos bigodes de Poirot! A arte não pode ser limitadora

  • 16 de fevereiro de 2019 em 12:51 am
    Permalink

    Concordo com vc. Brannagh não é a primeira imagem que temos qdo pensamos em Poirot, mas ele me surpreendeu. Estou bem ansiosa pelo próximo filme.

    Resposta
  • 17 de fevereiro de 2019 em 3:43 pm
    Permalink

    Amei o Brannagh, não sou tão apegada ao cânone e concordo que a interpretação dele foi fenomenal! Isso valorizou a Agatha.
    Quero muito assistir essas séries da BBC, será que na Amazon Prime elas são acessíveis?
    Adorei seu texto, se engessar muito, perde a qualidade.

    Resposta

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