Vampiros são os mesmos, mas o sangue tem outra cor em “Love Kills”

Vampiros são os mesmos, mas o sangue tem outra cor em “Love Kills”

 

Por Rogério Christofoletti – Vampiros são como o abismo: provocam na gente repulsa e fascínio. Ao mesmo tempo em que atormentam nossas mentes, nos atraem como ímãs, pois são sensuais, provocadores, elegantes, poderosos…

Entre os mitos que povoam o imaginário popular, o vampiro funciona não só como ponto de ignição para medos subterrâneos mas também como metáfora social. Podem ser aquelas pessoas que sugam a nossa energia pessoal e se aproveitam das fraquezas, podem representar o vazio da existência… A graphic novel “Love Kills”, lançada recentemente pela DarkSide Books, segue a trilha do precioso líquido e mostra mais uma leva de mortos-vivos que desafiam o tempo e as leis da natureza.

O fio condutor é Helena, uma insinuante mulher que vara as noites entre bares e boates, embrenhando-se na fauna jovem em busca de prazeres. Desde os primeiros quadros, sabemos que ela não está só atrás de boa companhia. Está à caça, e ai de quem invadir seu território…

Com claras referências a outros mestres do horror vampiresco – principalmente Anne Rice! -, Danilo Beyruth oferece um capítulo moderno, ordinário e pop. Há um certo clima dos anos 80 no figurino das personagens, mas elementos como telefones celulares nos remetem a nossa contemporaneidade. E Beyruth sabe bem o que faz! É experiente no gênero – já desenhou o Motoqueiro Fantasma para a Marvel! – e tem nas costas um punhado de prêmios, entre eles o HQ Mix.

Criou o Necronauta, personagem que atua como um salva-vidas de almas, mas não se limita a um único gênero. Traz no currículo os cangaceiros Tinhoso e Cavêra di Boi e a reformulação muitíssimo bem-sucedida de um personagem de Maurício de Sousa, o Astronauta. Mais que dar novos contornos ao fofinho desbravador do universo, Beyruth estabeleceu um recorde: nenhuma outra criação ganhou tantos livros na coleção Graphic MSP: ele assina cinco volumes, sozinho ou muito bem acompanhado.

Em “Love Kills”, a aposta passa por oferecer alguma contribuição de vulto para um universo já super-povoado como as histórias de vampiros. De forma despretensiosa, Beyruth consegue. Econômico nas cores e nas palavras, o autor oferece 248 páginas de aventura e mistérios ancestrais. Resistindo à tentação de espirrar sangue rubro na cara dos leitores, o artista recorre ao preto e branco, fazendo do alto contraste não só um recurso decorativo, mas também um elemento narrativo, que marca mudanças nas falas de alguns personagens, por exemplo. Como complemento, Beyruth lança mão também de hachuras e retículas, dando aos desenhos camadas de apuro estético e construção cenográfica. Poderíamos com isso estar mais próximos do gótico, mas penso que estamos bem mais perto do noir.

O artista explora bem as páginas, dividindo-as em cenas amplas que enchem os olhos dos leitores. Muitos dos quadros não trazem balões, diálogos ou quaisquer elementos textuais. Essa escolha, aliada a transições muito curtas entre as cenas, faz com que a história ganhe um ritmo alucinante. Perseguições e lutas corporais ficam tão rápidas quanto os ataques dos sugadores de sangue. Tudo é muito rápido em “Love Kills”, como se a velocidade da história reforçasse a urgência e a sede dos vampiros. O resultado é uma experiência de leitura muito intensa e vertiginosa.

É verdade que, em alguns momentos, algumas falas soam artificiais. São personagens narrando o que pretendem fazer, contando o que estão a descobrir. O efeito indesejável é um excesso de didatismo, e talvez o uso de recordatórios funcionasse melhor nesses casos, sem qualquer prejuízo de sentido ou velocidade.

A agilidade da história não impede uma atmosfera lúgubre e o desfile de vidas amargas e depressivas. Os vampiros de “Love Kills” são seres solitários, aparentemente exaustos da condição de mortos-vivos. Atravessam os séculos e buscam se reencaixar no fluxo temporal. Por falar em tempo, fico imaginando o artista atravessando madrugadas sobre a prancheta, ouvindo a casa estalar. Ainda no escuro, pendurava as pranchas terminadas num varal improvisado. Sobre a alvura do papel, o nanquim escorria como uma veia aberta…

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