resenha

CRÍTICA | Coletânea: Heróis Urbanos


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Por Ana Paula Laux – A coletânea “Heróis Urbanos”, publicada pela editora Rocco Jovens Leitores, nasceu com a proposta de reunir contos que desconstruíssem e questionassem a imagem do herói nos livros. Para isso, foram convidados sete autores com a missão de criar histórias que transparecessem a visão de cada um sobre o tema. A ideia partiu da gerente editorial da Rocco, após ler um conto enviado por Rubem Fonseca, maior nome do gênero crime/policial entre os romancistas nacionais.

“Volnei” é a história que abre a coletânea, escrita por Raphael Montes. A trama envolve uma mulher traída, um assassino serial conhecido como Monstro do Cadarço e um desfecho chocante. Narrado em primeira pessoa, Raphael escolheu a linguagem coloquial para tratar de temas como a justiça, vingança e modernidades, e como reações em cadeia motivadas pelo ódio podem e, geralmente, acabam mal. Em “Material Escolar”, Luisa Geisler cria um embate entre uma psicóloga e uma aluna de histórico escolar invejável, porém suspeita de vender resultados de provas para amigos na escola. O conto é dividido em trechos de transcrições com a aluna Carolina e pessoas próximas. Rápido e objetivo, porém com cortes textuais que desaceleram um pouco o ritmo da leitura.
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Eu acho que todo mundo vai ser o vilão da história de alguém algum dia”
(Material Escolar, de Luisa Geisler)

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O terceiro conto é justamente o de Rubem Fonseca, o intitulado “Passeio Diurno”, sobre um entregador que tem seu momento herói quando usa uma bicicleta para punir as “pessoas más” que encontra pela cidade. Desanimado com as maldades que enxerga pelo caminho, ele joga os aros da bicicleta em cima de ladrões de velhinhas, pais violentos e pessoas mal-encaradas, na esperança de fazer a justiça que não encontra no dia-a-dia. “Eu sei quando uma pessoa é má só de olhar para a cara dela”, ele repete. O único problema desse conto é que é muito curto… Acaba deixando aquele gostinho de quero mais.

Seguindo a ordem chega “História Lacrimogênica de Jamile”, escrito por Natércia Pontes. Com um texto inicialmente mais descritivo, ela conta a história de uma órfã que foge da casa onde vivia ainda criança para buscar uma vida melhor na cidade. O conto é surrealista demais, e o leitor pode perder o interesse no meio do caminho com tantas subinterpretações para um mesmo tema. Já Leticia Wierzchowski consegue prender a atenção do começo ao fim em “Seu Amor de Volta em Três Dias”. Aqui, o herói é um pai que irá cuidar da filha de 5 anos durante seis meses, pois a ex-mulher terá de viajar. A história flui facilmente, o protagonista-herói acaba se mostrando um misto de investigador e cupido, e eu fico me perguntando quem será o Pai Tião, esse personagem da vida real.

Em “Besouro Azul Entre o Bem e o Mal”, Cecilia Giannetti conta a história de uma menina insone que viaja para o Rio de Janeiro em busca de notícias do irmão desaparecido, que serão repassadas por um detetive num encontro incomum e misterioso. Um fato curioso é que a garota parece sofrer uma espécie de Síndrome de Poirot uma hora, pois encasqueta com o formato arquitetônico do prédio onde vai acontecer o encontro, esses detalhes de gente meticulosa e meio maluca… O conto tem muitas referências à língua inglesa (WTF, 24/7) e até ao Offspring (The Kids are All Right – ok, o original é Aren’t, eu sei! mas que lembrou, lembrou). Eu gostei dessa frase: “…mexeu um bigodinho fino-noir de milk-shake acima dos lábios…” (fiquei imaginando o formato do bigodinho, acho que já influenciada pelas coisas de Poirot).

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Para fechar, um conto muito legal e que vai agradar quem foi adolescente quase duas gerações lá atrás. Em “Da Gravidade e Outras Leis”, de Emiliano Urbim, o protagonista é um estudante farto de aguentar provocações na escola e que tem que lidar com uma prima problemática em casa, que o fará refletir sobre o papel do herói proposto no tema. As referências dos anos 90 aparecem aqui e ali, como o CD do Guns com macarrão na capa, o texto é bem humorado e flui bem. Faz refletir sobre a imagem que as pessoas constrõem dos outros e como ela pode ser construída e desconstruída baseada em suposições. E o final é bem perturbador

Com uma seleção variada de autores, “Heróis Urbanos” é uma boa sugestão de leitura, e ainda por cima traz belas ilustrações do artista gráfico Rascal e um conto gracioso do Rubem Fonseca. Bom para conhecer mais autores nacionais também.

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urbanosTítulo: Heróis Urbanosmaxresdefault
Autor: Coletânea
Páginas: 184
Editora: Rocco Jovens Leitores
Este livro no Skoob

SINOPSE – Reunindo jovens e veteranos da ficção brasileira – Raphael Montes, Luisa Geisler, Rubem Fonseca, Natércia Pontes, Leticia Wierzchowski, Cecilia Giannetti e Emiliano Urbim -, a coletânea de contos para jovens heróis urbanos desconstrói o arquétipo do herói presente na cultura pop, com uma galeria de personagens cheios de complexidade e contradições saídos do cotidiano urbano. Desprovidos de poderes especiais, os protagonistas dessas histórias narradas em linguagem crua vagam anônimos pelas metrópoles contemporâneas, colocando em xeque o bom e o mau, o certo e o errado, o heroísmo e a vilania, como uma cabeleireira que lida com o surgimento de um serial killer numa favela, ou uma garota precoce que gerencia um negócio inusitado na escola.

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