resenha

CRÍTICA | A Garota no Gelo, de Robert Bryndza


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POR RODRIGO PADRINI – Algumas fórmulas costumam ser infalíveis para a criação de romances policiais. No entanto, isso não significa que, seguidos os seus passos, o resultado será sempre original e excelente. A mera sensação de já ter lido aquele livro antes ou algo muito parecido costuma ser um sinal de que a fórmula não foi utilizada com tanta desenvoltura. Será que estamos falando de um desses casos?

“A Garota no Gelo” (Editora Gutenberg, 2016) é o primeiro romance policial escrito pelo inglês Robert Bryndza e o primeiro volume de uma série com a Detetive Erika Foster, uma policial de meia idade que passa por um momento difícil em sua vida pessoal após perder o seu marido. No melhor estilo “quem é o assassino”, o livro traz uma narrativa ágil, com elementos clássicos de uma boa investigação policial e uma leve dose de crítica à dupla dinâmica “dinheiro e poder”. A história se passa em Londres e, caso você já tenha tido a oportunidade de visitar a cidade, as menções a ruas, parques, bairros e estações de metrô podem deixar a ambientação muito mais interessante.

Mas, se falei da fórmula infalível no início, preciso me explicar. Comecemos pela protagonista. Não é de hoje que encontramos, como protagonistas de nossas investigações, detetives problemáticos ou abalados por experiências arrasadoras em sua história pessoal ou profissional. A Detetive Erika Foster é um desses casos e, para quem já acompanha literatura policial, pode soar bem clichê.

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“Ela inspirava e expirava, o batimento cardíaco foi ficando mais lento, a realidade voltava a apoderar-se de sua mente. Ela escutava vozes abafadas e passos; pessoas andando ao lado do carro. As vozes ficavam mais altas e depois se afastavam”.

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Apesar da aparente repetição, a personagem é carismática e, sem dúvidas, rende diálogos divertidos e adota posturas inesperadas em alguns momentos. Entretanto, o elemento “policial-problemática-que-enfrenta-a-hierarquia-e-a-qual-ninguém-leva-a-sério” já foi muito explorado na literatura e, em minha opinião, enfraquece a originalidade da obra. Não sei se estou lendo livros policiais demais, mas em diversas ocasiões, pude quase prever o que ia acontecer em seguida.

Algumas situações me lembraram bastante os livros de Tess Gerritsen e a detetive Sarah Linden, da série de televisão The Killing. O enredo, no entanto, é criativo e o fato de a trama envolver uma família rica e de prestígio na sociedade, torna a dinâmica da investigação muito interessante. A forma como é trabalhada pelo autor a influência do poder, do dinheiro e da imprensa sobre o inquérito, torna o final bastante imprevisível. Pela identidade do assassino, realmente, eu não esperava. A ligação entre o assassinato de uma jovem rica e a morte de algumas prostitutas permanece um mistério, sendo revelada apenas nos últimos capítulos, de forma surpreendente.

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O livro é narrado em terceira pessoa e enriquece a experiência de leitura quando traz capítulos com a perspectiva do provável assassino, seus movimentos e suas reflexões. É uma jogada interessante e funcionou muito bem, neste caso. Entretanto, um detalhe me incomodou e aceito todas as críticas provenientes do fato de mencioná-lo.

Nos capítulos onde conhecemos a perspectiva do suspeito, a narração se utiliza do termo “a figura”, provavelmente, com o objetivo de não revelar se o assassino é homem ou mulher, como “o indivíduo”, “o sujeito”. Em inglês, estamos mais habituados à utilização de “the figure”, no entanto, em português, a tradução literal não caiu bem. “Noooooossa, mas que chatice…”. É, eu sei.

Por fim, “A Garota no Gelo” é um bom livro, mas não impressiona. Apesar das críticas, me apeguei à Detetive Erika Foster e torci pelo seu sucesso. Robert Bryndza tem um humor interessante e nos diverte – aquela diversão meio mórbido-esquisita que só os amantes da literatura policial entendem.

(Imagens: Rodrigo Padrini)

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garota_geloTítulo: A Garota no Gelo (Original: The Girl in the ice)
Autor: Robert Bryndza
Tradução: Marcelo Hauck
Páginas: 320
Editora: Gutenberg
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SINOPSE – Seus olhos estão arregalados… Seus lábios estão entreabertos… Seu corpo está congelado… Mas ela não é a única. Quando um jovem rapaz encontra o corpo de uma mulher debaixo de uma grossa placa de gelo em um parque ao sul de Londres, a detetive Erika Foster é chamada para liderar a investigação de assassinato. A vítima, uma jovem e bela socialite, parecia ter a vida perfeita. Mas quando Erika começa a cavar mais fundo, vai ligando os pontos entre esse crime e a morte de três prostitutas, todas encontradas estranguladas, com as mãos amarradas, em águas geladas nos arredores de Londres. Que segredos obscuros a garota no gelo esconde? Quanto mais perto Erika está de descobrir a verdade, mais o assassino se aproxima dela. Com a carreira pendurada por um fio depois da morte de seu marido em sua última investigação, Erika deve agora confrontar seus próprios demônios, bem como um assassino mais letal do que qualquer outro que já enfrentou antes.

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19 replies »

  1. Além de leitor assíduo de ficção policial, tenho uma grande atração por histórias que se passam no gelo ou na neve, então quando vi esse livro na livraria, ainda mais sabendo que se tratava do início de uma nova série e ainda mais com uma policial como protagonista, não precisei pensar muito pra me decidir a dar uma chance ao estreante (no gênero policial) Robert Bryndza. Concluída a leitura, confesso que minha reação foi um tanto neutra: a narrativa não chega a fugir das fórmulas consagradas do gênero, nem o estilo do autor se impõe como um atrativo em si próprio, mas também não chega a ser um desses romances caça-níqueis vazios de autenticidade e escritos em estilo industrial. Apesar de tudo, considerando que trata-se da estreia do autor no gênero, parece um início promissor para o Robert Bryndza.Vamos aguardar os próximos títulos da série (segundo informações da própria edição, o autor já concluiu o terceiro) e ver se ele consegue se aprimorar.

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  2. Oi Ro, confesso que com sua resenha perdi o encanto pelo livro, até porque a sinopse me envolveu e já coloquei ele na lista na mesma hora, mas depois disso tudo que li vou mais pé no chão com essa leitura. Obrigada pela sinceridade.

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  3. Nossa, nunca vi uma crítica tão igual ao que eu pensei sobre um livro. Busquei a leitura após ter terminado a Garota no Trem – que eu estava fissura , principalmente pelo estilo novo que a autora adotou – então achei a Garota no Gelo, que parecia ser instigante. Porém, todas as partes eu tinha a sensação de está vendo um capitulo de CSI. Uma investigação policial, escrita em narrativa linear que não trazia nada de novo ao gênero. Sem querer desmerecer o autor, até por que escrever um romance a ponto de ser publicado e ter tomado uma proporção considerável é um desafio, mas eu senti o mesmo. Terminei a leitura achando o livro neutro, e apesar de ser claro um romance de ficção , um tanto longe de uma possível realidade.
    Ainda assim, recomendo pra quem estiver a procura de um livro para ler como hobbie.

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    • Oi Amanda, que bom que “transmiti” suas impressões, rs. Para quem acompanha outros autores da literatura policial, acredito que seja mais fácil identificar do que estamos falando quando dizemos que o livro não empolga, nem surpreende. Acho também que merece crédito como você disse, obviamente. A protagonista, apesar de não fugir muito do habitual, é bem legal. Abraços!

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  4. Achei o livro bacana, porém um pouco previsível e acho que o final se desenrolou rápido demais, levando em conta a riqueza de detalhes vista em muitos momentos em outros capítulos. De fato na minha cabeça só conseguia ver a Erika como a Sarah Linden do The Killing!

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