ENTREVISTA | Uma conversa com a tradutora do Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe voltou para as livrarias este ano numa nova edição da Darkside Books, parte da bela série Medo Clássico publicada pela editora. Poe abordou como ninguém o suspense e o mistério em suas histórias, e até hoje conquista leitores com sua obra universal.

Nosso colunista Alexandre Amaral conversou com Marcia Heloisa, a tradutora da edição da Darkside Books. Confira abaixo.
 

1. Em uma breve pesquisa, percebemos que a sua pesquisa tem o horror como pauta recorrente. A tradução da obra de Edgar Allan Poe foi ocasional ou há ali uma convergência de interesses? Qual a sua relação com Poe?

Como leitora e pesquisadora do horror, minha relação com Poe é antiga e visceral. Acho que os entusiastas do gênero cultivam um apreço pelos mestres que contribuíram para tornar o horror uma seara tão rica e Poe, sem dúvida, é um deles. No caso da tradução, deu-se o feliz casamento do desejo da editora em encontrar alguém que apreciasse e conhecesse bem o autor com minha ávida disposição para conduzir Poe a sua nova casa, a DarkSide.

 

2. Neste lançamento, a DarkSide Books preparou uma edição luxuosa e definitiva. Como essa parte do projeto influencia o seu trabalho?

Sou fã da DarkSide desde o lançamento de estreia da editora e é uma honra poder colaborar com eles. O horror, embora popular e perene, tende a ser circunscrito à uma zona muitas vezes depreciativa, como se fosse um gênero “menor” ou pouco sério. Acho que a DarkSide faz um belíssimo trabalho de “reposicionamento” do horror no mercado, combatendo sua marginalização com edições impecáveis feitas por e para fãs. É o horror, como disse, encontrando um novo lar, sendo tratado com o respeito e o esmero que merece.

“Meu conto favorito é A Queda da Casa de Usher, com sua atmosfera lúgubre e assombrada”

 

3. A nova edição dividiu-se em grupos temáticos, como: espectro da morte, narradores homicidas, Detetive Dupin, etc. Qual desses lhe agradou mais traduzir?

Todos foram igualmente gratificantes e desafiadores, a sua medida. Alguns contos incluíam poemas, o que sempre requer um pouco mais do tradutor; uns, pediam a reconstrução de uma atmosfera claustrofóbica na qual as palavras deveriam pesar como tijolos; em outros, as frases deviam vir cuidadosas e discretas como passos misteriosos em um corredor escuro. O que mais me deu trabalho, sem dúvida, foi “O Escaravelho de Ouro” – embora as narrativas detetivescas do Dupin também tenham exigido a construção de uma prosa fluida em português, que não cansasse o leitor.

 

4. Em sua opinião de leitora, qual parte da obra do Poe te agrada mais?

Gosto muito dos narradores homicidas – sempre obsessivos e passionais. Mas o espectro da morte ainda é o que mais me fascina: meu conto favorito é “A Queda da Casa de Usher”, com sua atmosfera lúgubre e assombrada.

 

 

5. Como leitora e pesquisadora da temática, quais obras de terror/horror (livros, filmes, peças, etc) você recomendaria aos interessados em ter para ter uma experiência genuína com esses gêneros?

Na literatura sugiro um passeio pelo gótico, desde suas origens literárias até o revival vitoriano do século dezenove, período que nos deu obras que se tornaram clássicos arquetípicos do gênero como Frankenstein, Drácula, O Médico e o Monstro. Entre os autores norte-americanos, recomendo uma visita a Poe e Lovecraft. Para os amantes dos contos, sugiro Sheridan Le Fanu, Arthur Machen e Algernon Blackwood. Entre as mulheres, gosto de Shirley Jackson e Daphne du Maurier. No cinema, além dos filmes do meu diretor favorito, Alfred Hitchcock, recomendo o ciclo norte-americano de clássicos da Universal (anos 1930/1940), o horror italiano de Mario Bava e Dario Argento e obras de diretores inventivos como George Romero, Wes Craven e, mais recentemente, James Wan. Entre meus favoritos, destaco: Psicose (1960), Os inocentes (1961), Assombração na casa da colina (1963), O bebê de Rosemary (1968), A noite dos mortos-vivos (1968), O exorcista (1973), Inverno de sangue em Veneza (1973), O massacre da serra elétrica (1974), Carrie (1976) e Um lobisomem americano em Londres (1981).

[Imagens: Darkside Books, Marcia Heloísa]

Alexandre Amaral

Formado em Letras pela UERJ/FFP, é professor e pesquisador da literatura policial brasileira. Aprendeu a gostar de ler com Veríssimo, mas tem o hábito de dosar a leitura de Sherlock Holmes, com pena de que a obra acabe. Gosta de filosofia, história e futebol. De Niterói, RJ.

Um comentário em “ENTREVISTA | Uma conversa com a tradutora do Edgar Allan Poe

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *