O pior dos crimes aponta (muitas) falhas no caso Nardoni

Por Rogério Christofoletti – No dia em que esse livro caiu em minhas mãos, um site dava conta de que Alexandre Nardoni poderia ter progressão de pena em 2019, passando ao regime semiaberto, que permitiria trabalhar fora da prisão e voltar para dormir nela. Desnecessário dizer que a caixa de comentários do site fervilhava de manifestações raivosas contra Nardoni e céticas quanto à justiça brasileira. Passados dez anos da morte de Isabella Nardoni, o país não esqueceu o brutal assassinato da menina de cinco anos, que despencou do sexto andar de um prédio em São Paulo num sábado à noite.

Nas últimas décadas, o caso Nardoni foi um dos que mais mobilizou a opinião pública nacional, movendo um conjunto de engrenagens policiais, judiciárias e midiáticas poucas vezes vistas. Mais um caso de crime em família, o episódio tinha nuances de horror com a acusação de que o pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, teriam agido em conjunto para matar a criança, dissimular o gesto, ocultar provas e apontar para um responsável fora da cena, um ladrão, que nunca foi perseguido ou capturado.

 

 

Exatos dez anos depois, o caso volta à discussão com o lançamento de “O pior dos crimes: a história do assassinato de Isabella Nardoni”, do jornalista Rogério Pagnan (Ed. Record), e traz revelações que poderiam encorajar autoridades a reabrir o caso. Não, não é exagero de release da editora. O trabalho realizado a partir de cinco anos de apuração rigorosa oferece ao público um material consistente que contraria polícia, perícia, Ministério Público e o próprio Judiciário. Aponta falhas em testes para a coleta e produção de provas, exibe arroubos de vaidade de delegados, advogados e promotores, e questiona partes cruciais da versão oficial do caso.

Para o leitor, fica claro que os investigadores tinham certeza da culpa do casal desde o início, e a história foi conduzida apenas para consolidar tal convicção. Eles sempre se declararam inocentes e foram condenados a pouco mais de 30 (Alexandre) e 26 anos (Anna Carolina). Nos caminhos e descaminhos da investigação e do processo, as certezas iniciais da implicação de ambos nunca foram abandonadas. Assim, suposições se tornaram afirmações, que foram apoiadas em laudos (nem sempre científicos ou confiáveis), mas que se tornaram provas irrefutáveis de uma narrativa conveniente.
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No livro, Pagnan fareja as falhas no processo e explora as contradições, ouvindo peritos independentes, policiais envolvidos na investigação à época e outras importantes fontes de informação.

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Vêm à tona o sangue no carro dos Nardoni que não era sangue, o arrombamento de um canteiro de obra atrás do prédio que poderia sustentar a hipótese da fuga de um suposto ladrão, e as credenciais acadêmicas da perita responsável não só questionáveis, mas que nunca foram comprovadas. Ao tratar dos bastidores do caso, Rogério Pagnan detalha o racha entre os advogados no início da defesa do casal, os meandros das milhares de páginas do processo, e algumas decisões policiais que mudaram o rumo das investigações.

Do ponto de vista jornalístico, o livro é um trabalho muito consistente porque faz uma investigação paralela do caso, desconfiando de tudo e de todos, e oferece informações novas. As falhas processuais e de investigação poderiam levar algumas provas a serem consideradas inválidas juridicamente, o que abriria brechas para o questionamento do julgamento e sua eventual anulação. Algum despreparo da perícia, o desaparelhamento da polícia, o precipitado linchamento midiático dos acusados e uma esmagadora pressão da sociedade por punição rápida e exemplar seriam ingredientes explosivos na receita daquele caso.

Embora tenha sido um trabalho exaustivo, a reportagem se ressente de algumas omissões importantes: Pagnan não volta a ouvir o promotor do caso, Francisco Cembranelli; nem Alexandre ou Anna Carolina foram entrevistados para o livro. Segundo o autor, não quiseram se pronunciar. Talvez se tivessem falado, a obra teria outras nuances… De qualquer forma, “O pior dos crimes” traz revelações que confrontam a versão oficial do caso, o que é um demonstrativo de coragem do seu autor. Ainda mais por Pagnan, ele mesmo, acreditar na culpa dos acusados.

Para jornalistas e estudantes da área, o livro é um exemplo de reportagem de fôlego e de como repórteres podem suspender suas convicções pessoais para apurar uma história. Para amantes da literatura policial, traz importantes detalhes de como funcionam as investigações de verdade e o sistema punitivo no Brasil. É um livro que reconta uma história terrível, mas que mostra, sobretudo, como funcionam os intestinos da produção de culpa na esfera criminal.

“O pior dos crimes” nos lembra como a crua realidade é complexa e nossa compreensão sobre ela, sempre incompleta. Bem diferente do que acontece nos romances policiais, onde tudo se encaixa perfeitamente. No final das mais de 330 páginas, resta o sabor amargo que decreta que o pior dos crimes é aquele que não se pode perdoar, e que só tem um final possível: a condenação certa.

O Pior dos Crimes. A História do Assassinato de Isabella Nardoni

Título: O pior dos crimes: A história do assassinato de Isabella Nardoni
Autor: Rogério Pagnan
Editora: Record
Páginas: 336
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SINOPSE – A história completa do assassinato que chocou o Brasil. Construído em ritmo de thriller, O pior dos crimes esmiúça o trágico caso que estarreceu a opinião pública de um país rotineiramente violento. Em 29 de março de 2008, Isabella, de 5 anos, foi atirada ainda com vida pela janela do sexto andar do apartamento do pai, Alexandre Nardoni, e da madrasta, Anna Carolina Jatobá, na zona norte da capital paulista, e morreu pouco depois de chegar ao hospital. O que se seguiu foi uma investigação e um processo repletos de pistas mal perseguidas, depoimentos de suspeitos com “pegadinhas”, uso de informaçõesfalsas, pressões indevidas para a obtenção de confissões, perícias criminais deficientes e um Ministério Público empolgado com os holofotes. Se o caso Nardoni representou ou não um erro judicial, se houve elementos suficientes para uma condenação “acima de qualquer dúvida razoável”, o leitor será capaz de dizer a partir da leitura deste instigante livro-reportagem.

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Rogerio Christofoletti

Jornalista, dramaturgo e professor universitário. Já publicou 11 livros na área acadêmica e escreveu oito peças de teatro. É um dos autores do e-book "Os Maiores Detetives do Mundo" (Chris Lauxx).

3 comentários em “O pior dos crimes aponta (muitas) falhas no caso Nardoni

  • abril 18, 2018 em 1:39 pm
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    Dificil o livro do Roberto Pagnam (na época um dos poucos jornalistas “a favor” do casal), desmontar a tese da Acusação que foi primordial para a condenação. Fato. Mas… É impossível sabermos o que se passou “no outro lado”. Fato é que Alexandre Nardoni e Anna Jatobá tinham pais e filhos. Que sofreram (e que sofrem!) com tudo isso. A grande verdade é que jamais saberemos a verdade!…

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  • abril 19, 2018 em 2:02 pm
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    Tomara que, um dia, a verdade venha à tona, Cláudio Roberto.
    É mesmo uma grande tragédia, né? O brutal assassinato da menina não só causou uma comoção social, como transformou para sempre a vida de seu pai, mãe, madrasta, avós e meio-irmãos… É tudo muito, muito triste. E o bom trabalho do autor do livro nos mostra bem isso…

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    • abril 19, 2018 em 10:34 pm
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      Júri estava contaminado ao condenar casal, diz defesa

      Segundo Roberto Podval, advogado de defesa de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, a repercussão do caso fez com que os réus virassem culpados antes do julgamento

      http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,juri-estava-contaminado-ao-condenar-casal-diz-defesa,70002240479

      Em uma reportagem para a TV na época, a defesa reitera este argumento:

      https://web.facebook.com/claudio.roberto.900/posts/10155903716517839

      Apesar do vídeo ser de 2010, paradoxalmente continua mais atual do que nunca: “O grande problema é que a sociedade precisa de um culpado.Ou se acha um culpado ou eles serão culpados porque não há um culpado”.

      Com certeza muitos irão discordar da minha posição, mas… Mantenho o meu ponto de vista:

      PORQUE SE MANTER PRESO O CASAL NARDONI?

      Porque se manter preso um casal, quando governantes não são responsabilizados pelas CENTENAS de pessoas que morreram, em virtude da falta de recursos na saúde? E QUE GOZAM DA LIBERDADE DA DITA “JUSTIÇA”?

      Porque se manter preso um casal, quando governantes não são responsabilizados pelas CENTENAS de policiais que morreram, em virtude da falta de recursos na segurança? E QUE GOZAM DA LIBERDADE DA DITA “JUSTIÇA”?

      Porque se manter preso um casal, quando governantes não são responsabilizados pelo rombo em contas públicas, provocando o desespero de servidores que não tem o salário em dia? E QUE GOZAM DA LIBERDADE DA DITA “JUSTIÇA”?

      Porque se manter preso um casal, quando a mídia não tem o mesmo cerceamento para outros crimes semelhantes (ou até mesmo PIORES) e que a própria polícia não dá a menor importância? E QUE GOZAM DA LIBERDADE DA DITA “JUSTIÇA”?

      Não justifico o possível delito cometido pelo casal. Mas se a dita “JUSTIÇA” deveria – em tese – ser igual para todos, porque não libertar os Nardonis?

      Até porque – e comparados com outros bandidos que ganham “n” benefícios da Lei, creio eu que eles são até “bonzinhos”, comparados com as outras mentes doentias que ganham o trajeto para a saída do presídio.

      É uma opinião minha – #Eusóacho . Para os Nardonis, vale a máxima da aplicação jurídica do pensamento Kantiano ao extremo:

      http://www.pauloqueiroz.net/caso-isabella-nardoni-por-que-punir-2/

      Para os demais (os “vencedores”)… As batatas!

      Resposta

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