Maigret e Os Porões do Majestic

Por Rodrigo Padrini – Quando leio os romances de Simenon com o Comissário Maigret, tenho a sensação de acompanhar investigações à moda antiga e observar descobertas de um detetive astuto e intuitivo. Sou um fã declarado de Maigret, mas quando fico algum tempo distante de suas aventuras e tenho a oportunidade de reencontrá-las, me lembro rapidamente dos motivos que o colocam no topo do ranking dos detetives ilustres.

Os Porões do Majestic (Companhia das Letras, 2017) é o mais recente título do Comissário publicado pela editora, que o faz de modo inédito, já que o intrigante assassinato de uma rica mulher norte-americana, nos porões de um hotel de luxo em Paris, ganha assim sua primeira tradução no Brasil.

Como todo bom enredo de Simenon, quando o assunto é Maigret, estamos envoltos na atmosfera de uma Paris na primeira metade do século XX e temos a oportunidade de, não só visitar o subúrbio e suas ruas e casas simples, como de adentrar um luxuoso e exclusivo espaço nos arredores da prestigiada avenida Champs-Elysées. Estamos na época em que ligações precisavam de telefonistas para serem feitas. Em que cartas escritas à mão eram provas únicas detentoras de segredos.

 

“As bonitas madames olhavam com estupor para aquelas famosas algemas de que tinham ouvido falar, mas que nunca haviam visto de tão perto”

 

Les Caves du Majestic foi publicado pela primeira vez em 1942 e a história foi utilizada adaptada algumas vezes para as telas ao longo do tempo. Primeiro, virou filme na França em 1945, com Albert Préjean no papel do Comissário. Já em 1963, se tornou o episódio The Cellars of the Majestic na série produzida pela BBC no Reino Unido, com o ator Rupert Davies como protagonista.

 

Alguns anos mais tarde, é a vez de Jean Richard encarnar o Comissário no episódio homônimo que foi ao ar na França em novembro de 1987. Em 1993, é a vez de Bruno Cremer vestir o sobretudo de Maigret e estrelar o episódio Maigret et les caves du Majestic, também exibido em telas francesas. No mesmo ano, uma nova adaptação inglesa traz Michael Gambon como Chief Inspector Maigret no episódio Maigret and the Hotel Majestic. Até onde foi possível garimpar, não houve outras adaptações do romance.

A trama não foge ao tradicional estilo Simenon e diverte o leitor que busca uma história breve, inteligente e bem construída. Alguns diálogos, em especial, são excepcionais. Para os fãs de Maigret, então, o nosso Comissário está livre, leve e solto, com anos de experiência na Polícia Judiciária e encontrando na conhecida Sra. Maigret o porto seguro tão necessário para a rotina peculiar que adota em suas investigações.

Alguns elementos fazem desse título uma novidade particular, afinal, após ler muitos – sim, muitos mesmo – livros com o Comissário, nunca o havia visto andar de bicicleta. Além disso, ficamos sabendo que Maigret, pelo menos nessa época, não gostava de cachorros. Todos esses detalhes vão compondo a personalidade um investigador ímpar na literatura policial.

 

“Ele deu uma freada tão brusca que derrapou e quase bateu na bicicleta de Maigret. Porque era Maigret que ia a seu lado, numa bicicleta pequena demais para ele, que havia sido emprestada por um mensageiro do Majestic”

 

Maigret prefere fazer as coisas ele mesmo, ainda que tenha sempre o apoio dos seus colegas policiais. É ele quem pega o trem e vai até alguma cidade buscar informações. É ele quem senta ao lado de um suspeito no bar, pede uma bebida e puxa assunto. É ele quem sai cedo demais de casa ou volta tarde demais. Parece crer que precisa estar lá pessoalmente, ver, sentir, cheirar.

Simenon, como de costume, está implacável na dinâmica de suas tramas, na descrição dos personagens e no encadeamento de eventos que tornam a leitura tão agradável. Em cerca de cento e cinquenta páginas, e onze capítulos, ao melhor gênero dos romances curtos do Comissário, desvendamos um crime de natureza imprevisível, onde a ganância se mostra determinante ao macular o curso de uma vida comum.

Para conhecer outros títulos do autor publicados pela Companhia das Letras, não deixe de visitar a Sala Simenon no Clube do Crime, um lugar que reúne o melhor da literatura policial e que te ajudará a encontrar a sua próxima leitura, depois deste aqui, é claro. Bom Maigret para todos(as)!

[Imagens: Rodrigo Padrini, divulgação]

Título: Os porões do Majestic
Autor: Georges Simenon
Tradução: Eduardo Brandão
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 152
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SINOPSE – Maigret terá de desvendar o assassinato de uma expatriada americana, encontrada em um hotel de luxo em Paris. O comissário Maigret apura o assassinato de Mrs. Clark, esposa de um rico empresário americano encontrada morta no porão de um hotel de luxo parisiense, nos arredores da Champs-Elysées. As investigações do comissário o conduzem dos inúmeros corredores do hotel Majestic aos campos do Bois de Boulogne e à ensolarada Cannes, mergulhando-o em um mundo de prostituição, drogas e chantagem. O lado sombrio da glamorosa vida dos expatriados em Paris é brilhantemente recriado neste romance, que ganha sua primeira tradução no Brasil.

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Rodrigo Padrini

Psicólogo, mestre e doutorando em Psicologia. Atua no sistema prisional. É músico e leitor assíduo de romances policiais, com aquele lugar especial no coração para Georges Simenon e Raymond Chandler.

Um comentário em “Maigret e Os Porões do Majestic

  • abril 8, 2018 em 5:28 pm
    Permalink

    Adorei a resenha, não sabia que este livro era inédito, vou comprar já, pois amo Maigret. Ele é fantástico e muito estiloso, um clássico à moda antiga, mas muito atual pelo intimismo e o embate humanista. Adoro! Obrigada!

    Resposta

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