agatha christie

Nossos adoráveis coadjuvantes


ariadne2

Por Raquel de Mattos – O que seria das aventuras no dia-a-dia sem nossos companheiros? Na história da nossa vida estamos cercados de personagens secundários, mas que têm uma função muitas vezes simples, e em alguns casos, fundamental. Sempre tem aquela pessoa que sequer sabemos ou lembramos o nome. Tem alguns amigos que quase não encontramos, mas que de vez em quando aparecem para dar um oi e deixam nosso dia mais feliz. E têm pessoas que estão sempre ali, dando assistências inacreditáveis para que a nossa história aconteça da melhor forma possível. Eles são protagonistas das suas vidas, mas coadjuvantes nas nossas. Mas nem por isso, menos importantes.

O mesmo acontece nos livros. Os personagens principais são rodeados de pessoas que estão sempre (ou quase) ali, ou às vezes é somente um transeunte ou comerciante que dá uma informação vital para que a charada seja desmascarada. Lógico que, de cara, quando falamos em romances policiais, vamos nos lembrar dos assistentes famosos, como Dr. Watson para o Sherlock Holmes, o Cap. Hastings para o Poirot, etc. E quando os coadjuvantes fazem parte do cenário?

Agatha Christie criou um elenco de coadjuvantes sem-número, principalmente de mulheres, e muitos estavam ali somente para que nós leitores, ficássemos na desconfiança de todos eles e não chegássemos ao culpado. Em sua maioria, personagens pra lá de cativantes! Eu as adoro!

Um elogio ao feminino na obra da Grande Dama!

x

Lady Angkatell
lady
Quem é fã de e já leu toda ou parte de sua obra, claro que já viu Lady Lucy Angkatell em “A Mansão Hollow” e seus olhos grandes e azuis, conversando com ela antes de falar com os outros e que tem uma cabeça incrivelmente ativa? Atualmente ela seria diagnosticada como portadora do Distúrbio do Déficit de Atenção (DDA), mas naquela época ela era somente excêntrica! Uma personagem pra lá de curiosa, que tem vários fãs e que aparece somente neste romance!

hollowÀs seis horas e treze minutos da manhã de uma sexta-feira, os grandes olhos azuis de Lucy Angkatell abriram-se para mais um dia e, como sempre, estava logo bem acordada e imediatamente começou a tratar dos problemas evocados por sua mente incrivelmente ativa. Sentindo a necessidade urgente de uma consulta e conversa, e escolhendo para tal fim sua jovem prima, Midge Hardcastle, que chegara à Mansão Hollow na noite anterior, Lady Angkatell saiu depressa da cama, jogou um roupão sobre os ombros ainda graciosos e atravessou o corredor em direção ao quarto de Midge. Sendo uma mulher de processos mentais desconcertantemente rápidos, Lady Angkatell, seguindo seu invariável costume, começou a conversa em sua própria cabeça, retirando as respostas de Midge de sua fértil imaginação. – A Mansão Hollow

Apaixonante!

x

Dolly Bantry
dolly
Quem também não poderia simpatizar com a Sra.Dolly Bantry, que acorda e descobre que tem um corpo na biblioteca e logo manda chamar sua amiga Jane Marple? Seu ímpeto de resolver todas as coisas faz com que seu marido, o Coronel Arthur Bantry, saia de perto em várias ocasiões.

bodyCom uma súbita manifestação de energia, a Sra. Bantry levantou-se da cama e puxou as cortinas. A luz de um lindo dia de outono invadiu o quarto.

– Não foi sonho coisa nenhuma – disse ela firmemente. Levante-se logo, Arthur, desça e vá ver isso!Um Corpo na Biblioteca.

Não é uma fofa? Mais frequente em suas aparições, Dolly Bantry ainda aparece em A Maldição do Espelho, já viúva, e Os Treze Problemas. Entretanto, Jane e Dolly não eram tão amigas até Os Treze Problemas, quando Sir Henry Clithering, um amigo em comum, sugere à Sra. Bantry que convide Miss Marple para o jantar, ao passo que Dolly se espanta:

– Se eu conheço Miss Marple? Quem não a conhece? É a solteirona típica dos livros de ficção. Um encanto de pessoa, mas irremediavelmente atrasada. – Os Treze Problemas

x

Ariadne Oliver
zoe wanamaker
Não menos importante, já que se trata do alter-ego de Agatha Christie, a escritora Ariadne Oliver se torna braço direito de Poirot em vários casos. Tem um traço cômico marcante e uma forte intuição feminina que geralmente a leva… para o lugar errado. Mas é uma personagem carismática, bem à vontade (talvez pelo fato de ser o retrato da própria Agatha) e que auxilia bastante Poirot, como em A Extravagância do Morto, Os Elefantes Não Esquecem, A Noite das Bruxas, Cartas na Mesa, A Terceira Moça, A Morte da Sra. McGinty.

cardsO que realmente importa é uma porção de cadáveres! Quando a coisa começa a ficar enfadonha, um pouco de sangue anima tudo. Alguém está prestes a revelar uma coisa… e aí morre primeiro. – Cartas na Mesa

Dada a importância desta personagem, em O Cavalo Amarelo ela vai explorar e investigar sozinha. É um livro diferente, que entra no rol daqueles que Agatha Christie escreveu sem seus detetives principais – Poirot, Marple e Tommy & Tuppence.

– A parte do assassinato é fácil, o difícil é encobrir as pistas. O culpado passa a brilhar que nem gás neon. – O Cavalo Amarelo

x

Miss Lemon
lemon
Miss Felicity Lemon, a eficaz secretária de Poirot que criou um método de indexação para os casos que deixa seu patrão très feliz. Infelizmente, Poirot a descreve tendo uma beleza inversamente proporcional à sua eficiência, ou seja, a achava muito feia! Aparece somente em algumas histórias e depois sai de cena dando lugar a George, o valete pessoal de Poirot.

hickoryIncrivelmente feia e inacreditavelmente eficiente.

A voz de Poirot exprimia grande incredulidade, pois aquela horrenda e eficiente mulher jamais cometia erros. Nunca adoecia, nunca se fatigava, nunca se mostrava transtornada ou descuidada de seus trabalho. Para todos os efeitos não era, portanto, uma mulher e, sim, uma máquina: a secretária perfeita. – Morte na Rua Hickory.

Sobre a personagem pouco sabemos, exceto quando no romance Morte na Rua Hickory, onde ela acaba por apresentar sua irmã, que dirige um pensionato na referida rua e está com problemas. Assim, a sempre eficiente Miss Lemon comete alguns erros – muitos, para quem nunca erra – e por fim Poirot decide ajudar a irmã e Miss Lemon volta a ser ela mesma, para a sorte de Poirot! Ufa!

x

Além dessas personagens coadjuvantes porém muito peculiares nas suas ações, que a deixaram marcadas indelevelmente na memória dos fãs, há ainda uma legião de outras personagens femininas, figurantes de luxo em grandes histórias. Quantas Gladys e Amy não foram entrevistadas por Poirot e Miss Marple? Empregadas domésticas ou do comércio que tiveram seus minutinhos de fama nos livros eternizados da nossa Rainha do Crime. Pessoas quase anônimas que às vezes viam um detalhe crucial e muitas vezes não davam a devida importância a ele, e que só mais tarde se pronunciaram e acabaram por dar a chave da solução do crime!

Abraços literários e até a próxima!

(Imagens: divulgação)

raquel_banner

Anúncios

6 respostas »

  1. Adorei o texto, é bem assim, os coadjuvantes se destacam e marcam tanto quanto os protagonistas.
    E o que dizer então de Watson e Holmes? O coadjuvante que na verdade é protagonista.
    E em Agatha é assim mesmo, às vezes um personagem apagado dá um detalhe que muda todo o rumo do enredo.
    Obrigada.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Muito bom o poster. O Paulo de Medeiros e Albuquerque tem um livro cujos mistérios foram resolvidos pelos auxiliares: Dr John Watson, Cap. Hastings e o mordomo Bunker do Lord Peter Wimsey. Watson escreveu para eles perguntando se tinham casos cuja solução fora dada sem o auxílio dos chefes. Livro: Uma Idéia do Dr. Watson (Editora Globo,1977).

    Curtido por 2 pessoas

Deixe um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s