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Batman: Por trás do capuz, um detetive


Batman - The Long Halloween

Por Thiago Augusto Corrêa – Desde sua criação, o Cavaleiro das Trevas foi concebido como um combatente do crime. Um personagem heroico e detetivesco com um princípio moral rígido, um alterego do milionário Bruce Wayne. Durante os 75 anos desde seu nascimento, a representação do morcego foi variável conforme a época, transitando entre a visão mais pura do século passado e um maior realismo no presente. O Batman que o público reconhece atualmente, tanto nos quadrinhos como no cinema, em destaque para a trilogia de Christopher Nolan, surgiu na década de 1980 através de uma reformulação da DC Comics. Na época, a editora buscava uma maneira de demonstrar coerência em seu universo, um fato necessário após décadas de lançamentos com autores diversos.

Em 1985, a saga Crise Nas Infinitas Terras foi o marco que modificou os gibis da editora e popularizou o conceito de megassaga, um sistema rentável ainda utilizado tanto pela editora quanto pela concorrente Marvel Comics. A partir de um evento que estabeleceu um novo marco zero, equipes criativas foram modificadas e novos autores selecionados para recontar a origem de diversos personagens, destacando a trindade heroica formada por Super-Homem, Mulher-Maravilha e Batman.

Frank Miller ficou a cargo da recriação da origem do Homem Morcego, ainda que pouco fora modificado do conceito original no lançamento da primeira história desta nova fase, intitulada Batman – Ano Um, apresentando a formação de Bruce Wayne como o mito heroico. A grande diferença das histórias anteriores para esta nova fase está na atmosfera. As histórias adquiriram um contorno mais realista, com desenhos que destacavam cores escuras, um aspecto até hoje presente nas aventuras mensais do Cavaleiro das Trevas. Foi este ponto de partida que moldou com melhores contornos aspectos do personagem conhecidos hoje: um investigador nato de inteligência e físico apurados, e que utiliza a noite como símbolo e manifestação teatral para potencializar seu mito. Uma força registrada também fora dos quadrinhos. Tornou-se comum para os leitores definir o morcego em uma categoria à parte, nem mundano nem super-herói; simplesmente Batman. Um potencial que faz do homem com senso extremo de força de vontade em defesa do bem e da moral.

É neste espaço temporal no início da carreira de Wayne como vigilante que o roteirista Jeph Loeb e o desenhista Tim Sale desenvolvem a minissérie O Longo Dia das Bruxas. A série retoma a ambientação e personagem de Ano Um de Miller dando sequência natural a tais acontecimentos, sendo informalmente conhecida pelos leitores como uma continuação direta deste arco. Composto por oito edições, lançadas na época pela Abril Jovem e recentemente em uma edição especial encadernada pela Panini Comics, O Longo Dia das Bruxas é um jovem clássico do personagem, equilibrando uma narrativa policial e os personagens conhecidos de Gotham City nos belos traços estilizados e levemente cartunescos de Tim Sale.

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“A composição de luz e sombra com destaque para a contraposição de cores frias e quentes”

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Na trama, Gotham City é uma cidade dominada pela máfia e pela guerra de gangues. Batman, o capitão Jim Gordon e o promotor público Harvey Dent trabalham em parceria para eliminar as atividades ilegais do chefão Carmine “Romano” Falcone, quando um assassino começa a matar importantes membros das famílias mafiosas da cidade a cada feriado festivo. Em cada cena, além das mortes, há uma arma .22, um bico de mamadeira como um silenciador e uma lembrança referindo-se ao feriado da ocasião.

Ainda que o personagem de Batman seja composto primordialmente como um detetive, o herói sempre se envolveu mais na luta contra o crime diante de maníacos e de sua galeria de vilões do que se debruçou sobre investigações de assassinatos comuns em outras narrativas do gênero policial. Assim, é nessa aventura que sua faceta de investigador é intensamente explorada sem que seus grandes vilões façam parte ativa da investigação. Loeb produz um interessante ponto de equilíbrio em que Coringa, Hera Venenosa, Charada, entre outros vilões conhecidos, participam da trama sem ofuscar a investigação central. Ao retomar o início da carreira do Morcego, a história evidencia a parceria entre Batman e Gordon em seus primórdios, dois homens com grande entusiasmos, à procura de melhorar a cidade onde vivem, uma luz diante da sujeira de Gotham City. Além disso, também demonstra precisão econômica em cada página, afinal, em uma trama que se passa em aproximadamente um ano, é necessário cuidado ao elaborar um roteiro sem antecipar ou prolongar momentos chave da trama.

Enquanto o roteiro se mantém bem elaborado, os traços de Tim Sale abusam de cores escuras e de paletas azuis representando uma cidade corrompida por sua atmosfera. Ao mesmo tempo em que mantém comunicação com a linguagem cinematográfica em cenas de ângulos compostos e feitas com um jogo de luz e sombras característicos do cinema noir. As imagens e a narrativa feita em off pelo próprio morcego compõem duas linhas narrativas que se complementam, demonstrando como a nona arte soube aproveitar-se de outras linguagens para inovar. O impacto visual de cada assassinato é reverenciado também sem recorrer a violência gráfica. Se Quentin Tarantino propositamente fez uma sequência de luta em preto e branco em Kill Bill Vol. 1, Sale também escolhe este estilo para destacar cada morte. Dando maior intensidade aos seus traços e avisando aos leitores, através da mudança de cores, de que se trata de uma cena que merece atenção. Uma obra pensada tanto em narrativa como em visual para estabelecer uma experiência diferente, ainda mais se considerarmos que histórias fechadas sempre alcançam mais o público do que edições mensais lançadas em diversas partes.

Mesmo os leitores que não conhecem a fundo a mitologia do herói compreenderão que Gotham City se divide entre vilões loucos e assassinatos comuns movidos por vingança, queima de arquivos, e outras justificativas para homens atravessarem o limite da lei. No meio desse caos, reside o homem morcego acima de qualquer suspeita. A vertente policial da narrativa envolve o personagem em uma tradicional investigação, ainda que seus suspeitos sejam excêntricos. Uma história que leva o morcego ao cerne de sua criação como um detetive vigilante, e ainda promove seus grandes personagens.

Vencedor do prêmio Eisner em 1998 na categoria Melhor Minissérie, O Longo Dia das Bruxas foi uma história tão aclamada pela crítica de quadrinhos e rentável que uma continuação, Vitória Sombria, foi lançada dois anos depois com a mesma equipe criativa. Uma história canônica que evidencia no equilíbrio entre narrativa policial e universo do morcego a força do personagem.

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Thiago Augusto Corrêa é formado em Letras pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, na cidade de Araraquara. Leitor por paixão e profissão, co-criador de findados coletivos literários virtuais em parceria com diversos amigos escritores. Desde 2012 é editor e crítico do site Vortex Cultural.

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