resenha

CRÍTICA | Spotlight: Segredos revelados


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Por André Leonel – Um dos nichos mais interessantes que podemos encontrar dentro de tudo que se agrupa como “literatura policial” é o jornalismo investigativo. Sem querer tirar o mérito dos nossos queridinhos detetives, policiais e afins, ler sobre sujeitos que correm atrás da verdade sem respaldo de armas e distintivos, só na cara e na coragem, gera uma admiração bem diferente.

E é de se admirar mais ainda quando se trata de uma história real, como em Spotlight – Segredos Revelados (Vestígio, 2016), em que uma equipe de jornalistas de Boston investiga minuciosamente casos de pedofilia praticados por padres, e de como estes crimes foram acobertados pela própria igreja por anos a fio. O título traz à tona uma investigação que custou meses de trabalho puxado em uma cidade extremamente católica, resultando em matérias vencedoras do Prêmio Pulitzer de 2003, um dos maiores prêmios jornalísticos do mundo.

Quando fui convidado para resenhar o livro, fiquei bem animado por ainda não ter assistido o filme de mesmo nome (ganhador do Oscar de melhor filme de 2016), realizando uma leitura livre de qualquer influência. O que me surpreendeu é que o filme é somente baseado no livro, no melhor sentido da palavra. Isso por que sua estrutura é completamente diferente do que eu imaginava: a edição aqui apresentada é uma coletânea de informações originadas das investigações publicadas no The Boston Globe.

Em vez de contar uma história mastigada, ele apresenta as reportagens, depoimentos e relatos de maneira mais solta, como um dossiê com direito a fotos e documentos conseguidos pelos quatro jornalistas e os dois editores que compunham a equipe Spotlight. É muito interessante analisar de forma quase didática o passo a passo da investigação desde que surgiu a primeira denúncia de abuso sexual infantil por um padre na cidade onde o The Boston Globe é sediado.

spotlight2(Imagens: André Leonel)

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A medida que mais denúncias começam a surgir, vemos que nem mesmo os jornalistas imaginavam tudo o que iriam descobrir, desvendando outros crimes de mesmo teor. Além dos diversos casos de crianças abusadas pelos padres, nos deparamos com uma questão moral bem mais delicada com a revelação de como agia o alto escalão da igreja católica para abafar estes escândalos através de influência religiosa, comprando o silêncio das vítimas e de suas famílias, e permitindo que os criminosos continuassem a agir em outras paróquias.

Já no filme (que assisti assim que terminei minha leitura) acompanhamos a história de uma maneira mais “romanceada”, com personagens bem trabalhados e com início, meio e fim mais elaborados. Tanto que seu segundo Oscar é por melhor roteiro original, e não adaptado, indicação geralmente mais lógica em caso de roteiros de cinema baseados em livros. É algo contado do zero, o que ilustra muito bem sua parte literária, complementando-a sem te deixar entediado como se tivesse acabado de ler o que se está assistindo.

“Spotlight – Segredos Revelados” é o resultado de um trabalho árduo de investigação jornalística, de busca pela verdade e justiça, quebrando paradigmas tão pesados como os incrustados pela religião. Em tempos onde o jornalismo flerta com a parcialidade, ler um livro como este nos dá um verdadeiro exemplo de coragem, em que profissionais conseguem fazer justiça revelando crimes tão bárbaros e evitar que milhares de novas vitimas sejam feitas, mesmo tendo que desafiar uma instituição tão forte quanto a igreja católica.

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spotlight4Título: Spotlight: Segredos revelados
Autor: The Boston Globe
Páginas: 288
Editora: Vestígio
Este livro no Skoob

SINOPSE: “Spotlight – Segredos Revelados” conta as descobertas da real investigação feita por um grupo de jornalistas, ganhadores do Prêmio Pulitzer em 2003, que denunciaram uma sucessão de abusos sexuais, obrigando a Igreja Católica a prestar contas. As reportagens revelaram a quantia gasta pela Igreja Católica com acordos para comprar o silêncio das vítimas cujas vidas foram devastadas por pedófilos que vestiam hábito e tinham o Pai Nosso na ponta da língua.

ANDRÉ LEONEL - Publicitário em Belo Horizonte e chegado em romances policiais desde quando cansava a biblioteca da escola lendo coleção Vaga-lume. Atualmente passeia pelas terras nórdicas pra ver se esbarra com o Nesbo ou com o Arnaldur.
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8 replies »

  1. O que me impressionou, particularmente, é que o roteirista não fez uma história para que o expectador saiba de sua denúncia, mas para que tenha repugnância da Igreja. Ao terminar de ver o filme você não apenas sai com pavor de que pessoas que merecem tanta confiança, como os padres, sejam capazes de abusar de crianças. Você sai da sala com raiva da Igreja. A figura real do cardeal Bernard Law, arcebispo de Boston na época, colocado no início e no final do filme é a prova de que a obra pretende despertar um asco pela Igreja e não pelos crimes que ocorreram em seus domínios. Parece dizer: esse é um bandido que foi premiado pela Igreja. A realidade não chega nem perto disso. O drama pessoal do repórter interpretado por Mark Ruffalo também evidencia esse tipo de propaganda. Ele não se revolta contra a infidelidade de alguns padres criminosos, mas encerra, com dor, sua hipotética volta ao seio da Igreja.

    Curtido por 2 pessoas

    • Olá, Solange! De fato, no filme eles evidenciam muito esse lado, talvez pela necessidade de um antagonista forte pra fazer o “romance” funcionar. Mas não há como isentar a igreja católica como instituição da responsabilidade quanto ao que aconteceu. E nem de vários outros erros perversos no decorrer de sua história (deixando claro que essa minha crítica pessoal que concorda muito com o filme remete à igreja, e não à religião). De qualquer forma, se quer uma versão um pouco mais imparcial nesse sentido, sugiro a leitura do livro, você vai gostar 🙂

      Curtido por 2 pessoas

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