resenha

Viaje no tempo com Contos de Horror do Século XIX


CLÁSSICOS DO HORROR – Fantasmas e criaturas assombrosas dão o tom de Contos de horror do século XIX, coletânea organizada pelo argentino Alberto Manguel que reúne 33 histórias sinistras do tempo dos cabriolés e lamparinas a óleo. Alguns autores selecionados são ícones do gênero, como Edgar Allan Poe e Bram Stoker, alguns são pouco conhecidos, e há quem seja mais popular em outros “departamentos”, como Arthur Conan Doyle no policial e HG Wells na ficção científica.

Ler essa coletânea é como embarcar numa máquina no tempo (ou mais precisamente, num trem-fantasma do tempo). Viaja-se para uma época onde espíritos, casas mal assombradas, vampiros de vilas e objetos amaldiçoados eram temas passíveis de um medo genuíno. E não tem como começar melhor do que com o inquietante A mão do macaco (também conhecido por A pata do macaco, que tem um trecho disponível no site da Companhia das Letras), escrito por WW Jacobs e com tradução pomposa de Rubem Fonseca. É o melhor conto da coleção, sem sombra de dúvidas! Foi escrito em 1902 mas mantém um fascínio aterrador, sobre o dono de uma pata encantada de macaco que, após ter três desejos concedidos, percebe que tudo na vida tem seu preço.

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Quando o paciente virou de frente para o seu rosto, o enfermeiro por pouco não recuou de susto; que raiva e que ódio selvagem ardiam nos olhos dementes.

(A flor vermelha, Vsévolod Gárchin)

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Em Os fatos no caso do sr. Valdemar, o genial Edgar Allan Poe nos arrasta para uma história de terror entremeada por intervenções científicas e lições sobre hipnotismo. Funciona como se estivéssemos junto ao moribundo Ernest Valdemar, renomado autor e compilador da Bibliotheca Forensica, testemunhando uma certa experiência macabra e sobrenatural. A curiosidade fica por conta da informação revelada na introdução: quando lançado, o conto pareceu tão convincente que foi tomado como história verídica e assustou muita gente (e aposto que ainda enganaria). Reações previsíveis em se tratando do poder de convencimento trevoso da mente de Poe.

As participações de HG Wells (O cone) e Arthur Conan Doyle (O cirurgião de Gaster Fell) são satisfatórias. Seus contos são bons. Exploram não o medo sobrenatural como no caso de Poe, mas o terror diante da própria maldade humana. Sobre finais que particularmente chamam a atenção, está A aia, de Eça de Queiroz, que imprime um ritmo regular para se completar num desfecho surpreendente. A selvagem, de Bram Stoker, não tem nada de vampiresco mas não deixa de ser tenebroso, enquanto que A janela vedada, de Ambrose Bierce, só perde no quesito inacreditável para o fim que levou o próprio escritor, em 1913, no México. E tem ainda Morte na sala de aula, de Walt Whitman, de um remate que choca pelo misto de indignação e horror.

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Um belo moço e uma moça bela se casaram com entusiasmo, Depois da
cerimônia – enfim sós – , sentados um em face do outro em poltronas
confortáveis, olharam-se mutuamente por muito tempo e, sem nada dizer,
explodiram de horror.

(Compêndio de história contemporânea
A fava, Léon Bloy)

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Alguns contos se perdem pelo caminho, seja pela descrição exagerada de coisas e situações, seja pela própria falta de charme. É o caso de Esperidião, de Georges Sand, ou um episódio do livro escrito pela romancista francesa em 1838. Nem a tradução de Milton Hatoum salva esse conto, que mais lembra uma versão simplificada (e chata) do inferno de Dante nos delírios de um monge chamado Aléxis. Acontece o mesmo com A volta do parafuso, de Henry James, que enrola tanto para discorrer sobre possíveis assombrações assustando crianças numa casa de campo ao ponto de fazer o interesse migrar rapidinho para a próxima história. A seu favor, contribui o fato do conto ter saído em série numa revista em 1898 e, por isso, ser mais longo. Mesmo assim, é uma seleção discutível.

Ler Contos de horror do século XIX é uma experiência única, que nos transporta para o mundo fascinante, sombrio e distante do século 19. Medos primitivos são estimulados a cada nova história e podem nascer em qualquer lugar, como num reflexo aterrador do espelho, numa sombra deslizando inexplicavelmente pela parede ou no morto que desperta para fugir a escuridão. A essência da natureza humana, essa dificilmente muda.

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Contos de Horror do Século XIX

Título: Contos de horror do século XIX
Autor: Vários autores, com organização de Alberto Manguel
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 552
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SINOPSE Nesta antologia de Contos de horror do século XIX, o escritor Alberto Manguel reuniu, especialmente para o público brasileiro, a fina flor do medo. Tão antigo quanto a civilização, o conto de horror define suas regras e chega a seu apogeu na literatura anglo-saxônica, na linhagem de escritores que vai da “gótica” Ann Radcliffe a Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft. Mas Manguel não se contenta apenas com os mestres mais conhecidos do gênero, como Henry James, Guy de Maupassant ou Robert Louis Stevenson. Convoca escritores de toda estatura e de várias línguas, do português de Eça de Queiroz ao íidiche de Lamed Schapiro.

Nesse percurso, o leitor transita por todos os ambientes e resvala em todos os motivos do conto de horror: igrejas em ruínas, subsolos pútridos, jardins ermos, prisões e campos de batalha, criaturas invisíveis, mortos-vivos, animais espantosos e espelhos encantados. Tudo isso em sua poltrona preferida, em (relativa) segurança, desfrutando ainda do último charme deste livro: novas traduções de todas as narrativas, cada uma a cargo de um nome expressivo da cultura brasileira contemporânea.

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