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Objetos Cortantes, de Gillian Flynn


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Por Josué de Oliveira – Ninguém gosta de protagonistas perfeitos. Quando nos voltamos para a ficção, temos o anseio de encontrar nas pessoas que habitam o mundo fictício traços que as assemelhem às do real. E, mais do que as muitas qualidades que um ser humano possa ter, é em seus defeitos, nos vícios, nos cantos sombrios e tons escuros de quem ele é que encontramos os espelhos que mostram mais claramente nossa semelhança. Protagonistas perfeitinhos demais não são unanimidade já há algum tempo, no cinema, na tevê e na literatura. Gostamos mesmo é de gente complicada.

Antes de escrever “Garota Exemplar” – livro que tirou “Cinquenta tons de cinza” do primeiro lugar das principais listas de mais vendidos e ganhou uma elogiada adaptação para o cinema pelas mãos de David Fincher –, Gillian Flynn já havia produzido outras duas obras. “Objetos Cortantes” (Editora Intrínseca) foi seu romance de estreia lançado em 2006, e sua protagonista, Camille Preaker, é extremamente instável e autodestrutiva – o tipo de gente que adoramos ler.

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Repórter do Daily Post, de Chicago, Camille é enviada a Wind Gap, Missouri, onde deve cobrir as buscas por uma adolescente desaparecida. Todos suspeitam que algo está para acontecer: há meses, outra garota passou um período desaparecida – antes de ser encontrada morta, seus dentes arrancados. Mas a ida a essa pequena cidade tomada pela tensão tem outros significados para Camille: trata-se de sua cidade-natal, onde ainda vivem a mãe – com quem mantém uma relação fria e distante –, o padrasto indiferente e uma meia-irmã muitos anos mais nova, com a qual jamais conviveu. Desse contato com a família, antigas feridas se reabrem e interferem na investigação.

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Nada parecido com a alternância de pontos de vista e as idas e vindas no tempo que caracterizam “Garota Exemplar”: aqui, estamos sempre presos ao olhar de Camille e a acompanhamos numa trama completamente linear.

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O primeiro romance de Flynn é bastante tradicional em sua estrutura e se apoia em certos lugares comuns: a repórter em busca da verdade, o retorno à cidade natal, a comunidade pequena com mais a esconder do que parece. Trata-se de uma narrativa mais econômica e enxuta, com um pé mais firmado na literatura policial, algo que talvez surpreenda aqueles que primeiro se aproximaram da autora a partir da complicada história de Nick e Amy Dunne.

No centro de tudo está Camille. Seu desconforto em voltar a Wind Gap fica evidente desde o momento em que Frank Curry, seu editor, lhe incumbe de cobrir o assassinato e o desaparecimento. Desde o primeiro contato com a mãe, Adora, testemunhamos a crescente tensão que envolve a relação de Camille com a família distante. Flynn dá a este aspecto da história tanta importância quanto a investigação acerca das meninas, na qual a protagonista vai aos poucos se inserindo.

Se o ambiente em torno de Camille não é favorável, seu próprio estado mental não melhora a situação. Recém-saída de uma clínica psiquiátrica, a repórter esconde os motivos na própria pele, e o confessa ao leitor de modo quase casual: “Eu me corto, sabe?” O vício em cortar o corpo, gravar palavras meticulosamente escondidas sob as roupas, vem da adolescência, após a morte da irmã mais nova, Marian. O contínuo estresse da volta para casa faz com que os impulsos de Camille retornem, cada vez mais fortes, e o leitor é levado a se perguntar quanto mais ela irá aguentar sem sucumbir.

Fora a própria Camille, apenas dois outros personagens são desenvolvidos a fundo. Adora, sua mãe, é a figura mais intrigante do livro. Demonstrando uma estranha inabilidade de se efeiçoar à filha mais velha, a mulher revela facetas estranhas e age por vezes de modo incompreensível, aplicando regras ditadas por um ponto de vista próprio e indiscernível aos de fora. Amma, sua terceira filha – nascida vários anos depois da morte de Marian –, surge como um agressivo contraponto a Camille: jovem, atrevida, muito à vontade com a própria sexualidade e cruel com absolutamente todos a sua volta, ela ecoa uma juventude que a meia-irmã mais velha viveu, hoje perdida, irrecuperável. Os momentos em que Camille entra em conflito com Adora e Amma são os melhores do livro, funcionando como gatilhos para maiores revelações acerca da personalidade e do passado da protagonista.

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Mas, se no terreno do desenvolvimento de personagens Objetos Cortantes se sai bem, a história é diferente na parte mais propriamente policial da trama. Pouca coisa acontece, e a sensação durante boa parte da investigação é estagnação. E, se isso faz parecer que há um tom de realismo empregado – quantas investigações na vida real ficam empacadas durante meses por falta de pistas e/ou incompetência dos responsáveis? –, o desfecho do romance deixa claro que, na realidade, havia simplesmente muito pouco a ser descoberto.

As descobertas finais, embora interessantes, são inquestionavelmente previsíveis. Uma reviravolta final que poderia render ótimos momentos praticamente não é explorada, inserida, encaminhada e concluída em poucas páginas. Com mais tempo, talvez o desfecho construído fosse mais memorável. A rapidez com que tudo acontece destoa do restante do livro e traz um desequilíbrio ao todo.

Tudo isso posto, “Objetos Cortantes” é um romance que fica na memória sobretudo por sua complexa e autodestrutiva protagonista em constante luta contra os próprios desejos – contra si mesma, portanto. Os demais elementos funcionam apenas modestamente. De toda forma, trata-se da estreia de Flynn – e, falando por mim, creio que “Garota Exemplar” demonstra que houve uma clara evolução.

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cortantesTítulo: Objetos Cortantes
Autora: Gillian Flynn
Editora: Intrínseca
Páginas: 256
Ano: 2015
Este livro no Skoob

SINOPSE: Recém-saída de um hospital psiquiátrico, onde foi internada para tratar a tendência à automutilação que deixou seu corpo todo marcado, a repórter de um jornal sem prestígio em Chicago, Camille Preaker, tem um novo desafio pela frente. Frank Curry, o editor-chefe da publicação, pede que ela retorne à cidade onde nasceu para cobrir o caso de uma menina assassinada e outra misteriosamente desaparecida. Desde que deixou a pequena Wind Gap, no Missouri, oito anos antes, Camille quase não falou com a mãe neurótica, o padrasto e a meia-irmã, praticamente uma desconhecida. Mas, sem recursos para se hospedar na cidade, é obrigada a ficar na casa da família e lidar com todas as reminiscências de seu passado. Entrevistando velhos conhecidos e recém-chegados a fim de aprofundar as investigações e elaborar sua matéria, a jornalista relembra a infância e a adolescência conturbadas e aos poucos desvenda os segredos de sua família, quase tão macabros quanto as cicatrizes sob suas roupas.

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