resenha

Os mistérios da autobiografia de Agatha Christie


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Por Ana Paula Laux – Enfim, coloquei minhas mãos neste livro! Há tempos procurava a famosa autobiografia de Agatha Christie, tão difícil de encontrar mesmo nos vários sebos que visitei ao longo dos anos. Publicado um ano após sua morte, em 1976, o livro foi reeditado em outubro de 2015 pela L&PM com nova tradução e nova capa. É uma leitura deliciosa para qualquer fã de Agatha e de romances policiais.

Nas 568 páginas, ela relembra momentos e pessoas que a influenciaram, das babás à irmã Madge, da mãe Clara aos animais de estimação que tanto amava, dos casamentos aos amigos que prezava. Também cita paixões gastronômicas, a exemplo do favorito creme de leite de Devonshire, e ainda experiências curiosas como quando morou em Paris na adolescência e presenciou uma das tentativas de voo de Santos Dumont no Bois de Bolougne.
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autobiografia“Se suportamos viver, temos que viver com coragem.
É um dever.”

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Por causa da época em que cresceu, uma era vitoriana e ultra conservadora no final do século 19, alguns costumes soam hilários e completamente inimagináveis hoje. Exemplos disso eram as máquinas de banho no verão inglês para assegurar a privacidade das mocinhas na praia, e as regras para os encontros de salão das adolescentes, que agendavam num “caderninho” as danças com os garotos/futuros pretendentes em noites de festa.

Acredito que as primeiras lembranças de Agatha foram as mais doces que conservou. Voltando à infância na casa de Ashfield, ela foi uma criança criativa e sonhadora, que se divertia com facilidade com brinquedos e criando mundos imaginários. Sua família era de classe média alta, e por isso teve uma criação com conforto e cheia de experiências. As primeiras histórias foram escritas numa Empire, a máquina de escrever da irmã, que segundo Agatha era uma excelente escritora mas nunca seguiu a profissão.
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maquinasMáquinas de banho usadas pelas moças nas praias inglesas no final do século 19
(Imagem: Messynessychic)

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Se não tivesse servido a 1ª Guerra Mundial como enfermeira, acredito que ela não teria se tornado a escritora brilhante que foi. Lidar com situações adversas e aprender a administrar remédios, tudo isso serviu como um laboratório da vida que assumiria anos mais tarde. O casamento com o primeiro marido, Archibald Christie, consumiu mais páginas do que eu imaginava encontrar já que a separação dos dois foi polêmica. As muitas viagens que fez pelo mundo, especialmente acompanhando o segundo marido, o arqueólogo Max Mallowan, monopolizaram os capítulos finais.

No recheio do livro, ela priorizou memórias sobre a família, amigos e literatura. O único membro que pouco descreve, talvez por ele ter morado muito tempo fora da Inglaterra, foi seu irmão Monty. A filha Rosalind, a vida doméstica durante a guerra e a “descoberta” da profissão renderam várias confissões deliciosas. Duas legais: ela nunca frequentou uma escola quando criança e não considerava que ser escritora era sua profissão oficial nos primeiros anos (assinava “prendas domésticas” em formulários quando solicitada). Incrível, né? Com relação à escola, sua educação inicial foram as aulas de aritmética com o pai enquanto aprendia a ler sozinha, xeretando a biblioteca da família. Mais tarde, frequentou cursos preparatórios para moças que serviam para educá-las como futuras esposas e mães prendadas. Como dizia, em 1912 o mundo era ainda bastante sentimental…

agatha_auto3“Não havia maldade em Miss Marple.
Ela apenas não confiava cegamente nas pessoas”

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Apesar da timidez, Agatha encarava a vida com um determinismo e uma sabedoria inatos, enfrentando os desafios que apareciam pelo caminho e permitindo-se aprender com os próprios erros. Pouco afeita a holofotes, entrevistas e badalações, ela jamais sentiu-se confortável em festas de lançamento e frequentemente atendia eventos do tipo por obrigação. Mas um evento em especial a marcou com orgulho: o dia em que conheceu a rainha da Inglaterra! 

Há referências sobre a criação de alguns sucessos literários, como O Assassinato de Roger Ackroyd e O Caso dos Dez Negrinhos, mas achei que foram descrições meio breves. Sempre imaginei que Poirot e Miss Marple haviam causado um gigantesco impacto na vida dela, porém fiquei meio duvidosa depois dessa leitura. Talvez eles tenham representado um importante capítulo, mas não tão vital quanto seu amor pela família e sua alegria de viver.

agatha_auto2“Eu diria que, pela simples observação da vida, onde não há humildade o povo perece.”

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“Autobiografia” começou a ser escrito em abril de 1950 e só foi finalizado quinze anos. Penso que Agatha Christie considerou por anos os momentos que realmente queria preservar, as pessoas fundamentais em sua vida, os amores incondicionais, as descobertas únicas, as viagens inesquecíveis, enfim, tudo o que valia a pena deixar registrado para a posteridade. Ela escolheu priorizar os momentos de felicidade e de crescimento pessoal, e acho que ficou realmente surpresa ao entrar para história da forma como entrou, como uma bem sucedida autora de romances policiais. Na maravilhosa escola da vida, talvez Agatha Christie nunca tenha deixado de ser uma eterna adolescente de olhos sonhadores, que adorava doces de creme de leite e refrescantes banhos de mar.

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autobiografiaTítulo: Autobiografia
Autora: Agatha Christie
Páginas: 568
Editora: L&PM
Este livro no Skoob

SINOPSE – Como que numa conversa espontânea com um amigo, Agatha Christie revela pessoas e fatos que inspiraram alguns de seus personagens e enredos, o que estava acontecendo em sua vida enquanto escrevia determinado romance e também sua sensível percepção sobre um mundo e uma sociedade que, ao longo de sua vida, passaram por mudanças drásticas. Destas deleitáveis páginas, repletas de ternura, emerge, sim, uma mulher madura e feliz, relembrando o próprio passado, mas sobretudo uma mulher ousada, à frente do seu tempo, que trilhou seu próprio e inusitado caminho, numa existência tão interessante quanto literariamente exitosa.

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