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CRÍTICA | Convite para um homicídio, de Agatha Christie


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POR JOSUÉ DE OLIVEIRA – O detetive clássico é aquele personagem (quase sempre homem) que se destaca por uma excepcional inteligência e bom raciocínio lógico. Frutos de uma época em que a racionalidade era vista como o caminho para o progresso da sociedade, estes senhores excêntricos e elegantes desvendavam, com um rigor que lembra o das investigações científicas, os mais fantásticos crimes. A cada assassino sagaz posto atrás das grades, a Razão obtinha uma vitória.

Nesse cenário de homens engenhosos, campeões da lógica e da dedução, uma frágil velhinha de olhos azuis, moradora de um vilarejo no interior da Inglaterra, causa estranhamento. E é nele que reside a genialidade de Agatha Christie ao criar uma das detetives mais improváveis da literatura policial mundial: Miss Jane Marple.

Ela não é uma policial aposentada nem tem conhecimento de técnicas de investigação modernas. Passou sua vida toda na pequena St. Mary Mead, nunca se casou e seus parentes mais próximos são sobrinhos. Como toda senhora idosa do interior da Inglaterra, gosta de se inteirar dos fuxicos na vizinhança e está sempre tricotando. Nada nela parece ameaçador a um assassino em potencial, mas essa é sua arma. Por trás de seus simpáticos olhos azuis, esconde-se uma astúcia que faria inveja a Poirot.

Convite para um Homicídio (parte do Box 5 Agatha Christie, da HarperCollins Brasil), lançado originalmente em 1950, é um dos doze romances protagonizados pela velhinha. A narrativa se desenrola na pacata comunidade de Chipping Cleghorn, onde todos se alvoroçam diante de um estranho anúncio feito no jornal local: “Convida-se para um homicídio”. O local indicado é Little Paddocks, casa onde Letitia Blacklock vive com alguns parentes e hóspedes.

Parte dos moradores da cidade se dirige para lá, curiosa com o que acredita ser algum tipo de jogo do assassino, brincadeira de interpretação de papéis onde se simula um crime. Às 18h30, todas as luzes se apagam, uma figura misteriosa surge pela porta segurando uma lanterna e ouvem-se tiros; quando a energia retorna, vê-se marcas de bala na parede atrás da Sra. Blacklock, cuja orelha sangra. O responsável pela invasão, reconhecido como empregado de um hotel da região, está morto, no que aparenta ser um suicídio. Estaria alguém tentando matar Letitia? Por quê?

 

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A investigação oficial fica a cargo do Inspetor Craddock, que logo recebe a ajuda de Miss Jane Marple, uma nobre visitante que chega à cidade.

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Se sua primeira reação após ler este resumo for soltar um “Hã?!”, vou entender perfeitamente. A sinopse parece prometer uma história absurda, mirabolante. Bem, deixe-me dizer desde já: promete e cumpre. “Convite para um Homicídio” é o perfeito exemplar do tipo de romance policial que Agatha Christie ajudou a popularizar: uma leitura ágil, cheia de surpresas, que se assemelha a um quebra-cabeças, as pistas no lugar das peças. Sua força se encontra principalmente no enigma proposto tanto aos personagens quanto ao leitor, no desafio de entender o que está por trás da bizarra ruptura da ordem que ocorreu em Little Paddocks.

Esse, para mim, é o grande barato de ler (e reler) histórias policiais antigas, sobretudo as de Agatha Christie. Ela, como ninguém, sabia criar uma atmosfera de intriga e mistério à qual não é possível ficar alheio. Sem forçar a barra, apenas deixando os personagens interagirem entre si e serem contaminados por suas suspeitas, a autora traz segredos e desconfianças à tona, mostrando o quanto não sabemos sobre os moradores de Chipping Cleghorn. Ler “Convite para um Homicídio” 66 anos após seu lançamento é constatar a habilidade atemporal da maior escritora de romances policiais de todos os tempos de provocar curiosidade, perplexidade, de transmitir um sentimento de desconfiança e expectativa.

A galeria de suspeitos tem seus altos e baixos, mas é, de modo geral, interessante. Com comportamentos por vezes caricaturais e nomes hilariamente britânicos — Easterbrook, Hinchcliff e Murgatroyd — , cada um contribui de alguma forma para o avançar da trama. Há também boas doses de humor, bem inseridas ao longo da narrativa, aliviando o clima de ameaça, mas nunca dissipando-o.

Mas a atração principal é, sem dúvida, Miss Marple, mesmo que só apareça num ponto avançado da trama (o que acontece em outros livros da autora, como “A mão misteriosa” e “Cem gramas de centeio”). Com seu jeito interiorano e modos levemente bisbilhoteiros, a velhinha é a própria imagem da inocência, sempre sendo convidada para um chá da tarde ou encontrando por “puro acaso” alguém que esteve presente em Little Paddocks na noite do estranho ocorrido. Com essa liberdade de conversar com os suspeitos sem chamar atenção (quem pensaria que uma velhinha fofoqueira está investigando crimes?), ela efetua sua inusitada investigação.

Sob essa aparência, Miss Marple é, na verdade, uma mulher pessimista, com grande conhecimento sobre a natureza humana, que, segundo ela, é a mesma em qualquer lugar. Na grande Londres, em sua minúscula St. Mary Mead ou em Chipping Cleghorn, as pessoas agem de maneira igual, pois compartilham os mesmos impulsos. A uma observadora experiente como ela, essa semelhança salta aos olhos e lhe permite ver além das pistas convencionais seguidas pelos profissionais. Miss Marple está sempre um passo a frente de todos por saber para onde dirigir sua atenção, e que as atitudes e comentários mais corriqueiros revelam muito sobre quem realmente somos.

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Outro ponto significativo da personalidade de Miss Marple evidente ao longo da narrativa quando percebemos seu ressentimento com a perda de certas características do passado. Coisas simples como conhecer a fundo os próprios vizinhos, pois todos os que viviam em determinado lugar tinham raízes ali estendendo-se por mais de uma geração. Esse cenário começou a se modificar com o aumento do fluxo de pessoas em toda a Inglaterra, sobretudo com o fim da Segunda Guerra, e cada vez menos era possível contar com essa relação de confiança baseada no pertencimento a uma comunidade. Uma consequência disso, segundo Miss Marple, é que passamos a confiar demais em pessoas que não conhecemos de fato. Essa questão dialoga diretamente com a trama de “Convite para um homicídio” e rende um intrigante monólogo da detetive, meu momento favorito da história.

Em seu desfecho, o livro nos entrega uma longa e detalhada explicação, no estilo já consagrado de Agatha Christie. Fãs que porventura ainda não tenham conferido este título ficarão satisfeitos; já para leitores de primeira viagem, recomendo algum título mais clássico, apenas para se ambientar melhor com Miss Marple. De toda forma, “Convite para um homicídio” é uma leitura prazerosa, jamais enfadonha, e que levanta questões interessantes sobre nossa confusa natureza humana.

(Foto: Josué de Oliveira)

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box5Título: Convite para um Homicídiomaxresdefault
Autora: Agatha Christie
Tradutora: Maria Isabel Garcia
Editora: HarperCollins Brasil
Páginas: 263
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SINOPSE – De repente toda a vizinhança lê nos jornais: Convite para um homicídio, Little Paddock às 6:30h. Todos estão ansiosos para a brincadeira, mas são pegos de surpresa… ouvem um estalo e então as luzes se apagam. Pensaram que a brincadeira já havia começado, até que um homem mascarado abre uma porta, atira e morre de um jeito misterioso. Nesse livro, a autora une suspense, humor e mistério em mais esta aventura de Miss Marple, uma senhora miúda e frágil que vai solucionar um estranho homicídio ocorrido no vilarejo de Chipping Cleghorn.

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