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ENTREVISTA | Ilana Casoy: a maior especialista em assassinatos em série


Ela anda tão mergulhada em projetos que nem sabe o que está acontecendo lá fora. Quando falamos ao telefone naquela quinta-feira, Ilana Casoy mal sabia se estava chovendo em São Paulo. Eram pouco mais de 18 horas e ela havia passado o dia em pesquisas, contatos para palestras e respondendo a e-mails de leitores.

Com um novo livro no forno e dois roteiros de cinema engatilhados, a maior especialista brasileira em assassinos seriais não para. “Agora, já estou entrando na ficção também”, disse sem disfarçar a empolgação. Com vinte anos de carreira e cinco livros no currículo, Ilana Casoy colhe hoje os melhores frutos do seu trabalho. É procurada pela mídia, foi assimilada pelo público e é respeitada pelas autoridades policiais, judiciais e forenses, o que também é muito importante. Afinal, sem acesso a arquivos, aos especialistas e às cenas de crime, não é possível ir além das primeiras linhas. A fita amarela de isolamento já não a impede de contar as mais escabrosas histórias nem de desenterrar os casos mais sórdidos. Bom para Ilana; melhor para seus leitores…

Confira a entrevista feita exclusivamente para o blog pelo colunista Rogério Christofoletti.

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Por que as pessoas são tão fascinadas por serial killers?
Porque a gente não entende esses personagens. O mistério fascina. Tudo o que é mito fascina. O mito não é bom nem mau, é mito, e acho que as pessoas querem entender, querem desvendar . E mistérios da vida real não dá nem pra culpar a imaginação do autor.

Você já está nessa estrada há vinte anos. Como mantém o interesse para continuar a pesquisar esses casos?
Cada caso é um caso, diferente do outro. Então, é sempre novo para mim, começo sempre do zero. Não entendo muito bem como um caso entra no meu radar. Não é planejado. Não sou eu que busco. Na maioria das vezes, o caso encosta em mim e por motivos que eu mesma não compreendo. Quando passa a desbravar, vem um mundo de novidades, como se a minha vida fosse um mundo de ficção.

Isso chega a alterar a sua rotina? Isso mexe com a sua sensação de segurança pessoal, por exemplo?
Deve ser, mas eu não posso parar pra pensa nisso. Eu não posso me permitir ficar pensando na minha segurança pessoal porque isso me paralisaria. Eu só ficaria pensando nisso. Talvez a forma como eu vejo a vida, tão positiva, a minha falta de medo, tudo isso me permita fazer o que eu faço. Porque se eu parar para pensar no que realmente acontece, no mundo cão que está lá fora, aí não dá pra fazer o que eu faço. Tem que escolher outra coisa! Eu tinha uma briga com meu filho mais velho: ele queria ter moto e eu achava perigoso. Até que ele viu um documentário em que estou num manicômio judiciário, numa fila de refeitório. Ele olhou pra mim e falou: “Você acha andar de moto perigoso?” Aí, a gente combinou: não falo da moto e ele do manicômio… Cada um pensa que pode ter controle sobre o seu perigo.

O Brasil não tem uma tradição de armazenar informações, de conservar arquivos. Que perfis foram os mais difíceis para fazer sobre os criminosos em Made in Brazil?
Aqui, tudo é difícil. Hoje é até um pouco mais fácil porque já publiquei, já conheço esse universo melhor, tenho mais acesso. O segredo não é você saber tudo, mas saber para quem pergunta. Ao longo desses anos, fui colecionando amizades importantes, conhecimentos, cursos e palestras. Essas referências vão te permitindo achar os acessos com mais facilidade. A primeira pesquisa que fui fazer sobre um caso brasileiro, eu nem sabia que existia um museu no Tribunal de Justiça de São Paulo! Fui até lá e eu tinha que fazer uma petição, e eu não sabia como funcionava isso. Liguei para o marido de uma amiga da ginástica, que era desembargador, para saber como fazia isso. Ele riu e disse: “A petição sou eu. Diz para o desembargador de plantão que fui eu que te indiquei”. Então, muitas vezes, é assim. É difícil, mas olha: hoje, o acesso está muito melhor do que já foi.

Mas o problema pode ser que os documentos não estejam organizados ou digitalizados…
É verdade. Nem tudo está digitalizado por aqui. Quando escrevi o primeiro livro – Serial Killer: Louco ou Cruel? -, usei muito esses acessos porque lá fora, os processos estão digitalizados. Então, você consegue fazer uma pesquisa com muito mais facilidade do que no Brasil. Mas pesquisar é isso: é chafurdar no porão! Essa parte eu gosto também. É difícil montar o quebra-cabeças, saber por onde começar, mas isso já faz parte do jogo. Estou com alguns projetos na área documental que não sei como fazer, vou ter que descobrir. Uma das diversões aqui, se é que se pode dizer isso, é onde encontrar esses dados.

Por falar em projetos, você está trabalhando num livro sobre o caso Gil Rugai, aquele rapaz que foi condenado sob a acusação de ter matado o pai e a madrasta em São Paulo em 2004. Já terminou de escrever?
Quero muito escrever esse caso porque ele, para mim, fecha um ciclo: o dos casos de família. Escrevi sobre o caso Richtoffen pesquisando pela polícia e pela perícia, na fase de inquérito ainda. O caso Nardoni, eu acompanhei pelo Ministério Público, pela acusação. E o caso do Gil Rugai, eu acompanhei pelo lado da defesa por conta de uma coincidência: eu tenho um filho que é advogado criminalista e ele trabalha pro-bono [de forma voluntária e sem remuneração] para o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), e ele foi escalado para defender o Gil. Isso eu conto no livro: teve uma conversa em família. Meu filho disse: “Você ajudou tanto a polícia em outros casos, será que você consegue ajudar uma defesa?” Eu respondi que precisava acreditar na história. Um advogado não precisa acreditar pois ele defende o direito que qualquer pessoa tem para se defender. Eu não funciono assim, eu preciso acreditar na história. Foi um desafio. Se eu acreditasse na inocência do Gil, eu participaria do caso, além da condição de mãe do advogado de defesa. Quando eu encontrei aquilo que me convenceu, eu entrei no caso. E eu vou te falar: o que me convenceu é brutal! Não foi uma tese que me convenceu da inocência. Foi o fato de que o Gil Rugai não está no local na hora do crime. Ele está em outro lugar!

Mas ele pegou 33 anos de pena por essa acusação!
Pegou. Eu sei, eu lamento, nem dormi na época, fiquei de cama… Mas é o caso de recorrer a instâncias superiores de justiça porque tem uma prova cabal de que ele está em outro lugar na hora do crime. O problema do nosso inquérito aqui é que ele não estabeleceu a hora do crime, mas uma faixa de horário. E nem era difícil estabelecer a hora porque todos os vizinhos ligaram para o vigilante da rua na hora dos tiros. Neste caso, a hora do crime é exato e não entendo porque isso não está no inquérito. Às vezes, não é exata a hora. Uma vez me chamaram para um caso em Araranguá, em Santa Catarina, e tive uma grande dificuldade. A moça sumiu no sábado às três da tarde e foi encontrada na segunda, às 11 da manhã. Que horas então ela foi assassinada? Isso é grande questão porque envolve se ela ficou ou não em cativeiro, envolve cálculo de temperatura, de decomposição do corpo, enfim, é muito complexo estabelecer a hora exata do crime. No caso Gil Rugai é facílimo: os vizinhos ligaram para o vigia. Bastava requisitar esse dado do telefone.

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“Acho que o conhecimento e a educação são as saídas para tudo, inclusive para baixar a criminalidade. E eu considero que os registros históricos são importantes para uma sociedade. Somos uma sociedade sem memória, as pessoas esquecem.”

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Esse livro do Gil Rugai está como?
Está no estágio em que eu preciso pegar um monte de outros trabalhos para financiar a escrita dele. Paro pra fazer palestras, para fazer outras coisas. Um livro desses demora para você escrever. Tem que ser preciso, pois estou lidando com processo, com a realidade. Não é inspiração, é braçal o trabalho: ler, estudar, entender e trazer aquilo para uma linguagem que todos possam entender… Demanda tempo e numa crise dessas, demora muito mais! Estou escrevendo. Tenho umas cem páginas escritas, mas falta bastante pra contar. É um livro que eu quero lançar porque assim que conto a história, que coloco ela pra fora, posso dormir em paz. Antes disso, ela fica martelando a minha cabeça. Sou a maior interessada em lançar o livro. Mas tem um outro problema: não terminou o caso. A justiça por aqui é tão lenta que às vezes penso: será que é melhor esperar o final do caso ou escrever um livro sem final?

Como é que a sociedade se beneficia com a publicação dos perfis desses personagens?
Acho que o conhecimento e a educação são as saídas para tudo, inclusive para baixar a criminalidade. E eu considero que os registros históricos são importantes para uma sociedade. Somos uma sociedade sem memória, as pessoas esquecem. As pessoas podem estudar e aprender com esses livros sobre como funcionam grandes casos, pela visão da polícia, da acusação, da perícia, da defesa… É também uma forma de popularizar o acesso a essas informações, já que pouca gente entenderia da forma que está nos processos. A linguagem usada é para as tribos de juristas, de psiquiatras e psicólogos, enfim. Eu escrevo como se fizesse ficção para facilitar a leitura e o entendimento. É um alcance mais popular do assunto.

Você mencionou ficção. Está trabalhando nisso também?
O Tony Bellotto me convidou no ano passado para escrever um conto para aquela antologia “São Paulo Noir”. Até brinquei com ele, achando que era engano porque eu nunca tinha escrito nada de ficção. Topei o desafio e escrevi um conto chamado “Boniclaide e ela” e foi legal o resultado. Ficou uma visibilidade para quem lê ficção, e fui convidada por um roteirista de grande prestígio para dois projetos de longa-metragem! Não quero falar o nome dele ainda porque ainda estamos trabalhando…

Para rodar os filmes já em 2017?
Acho que não. E tem todas as questões do cinema, para viabilizar e tal, e tem também um longo aprendizado para mim para falar numa linguagem que é muito diferente da dos livros. É um momento muito bacana esse que estou vivendo, e estou curtindo pra burro! Estou achando tudo incrível. O melhor da ficção é que, se você não gostou do final, você muda. Coisa que não posso fazer nunca!

São dois argumentos da área policial, naturalmente…
No momento, já deixaram de ser argumentos e são roteiros. Um é argumento desse roteirista, e eu só estou escrevendo junto, e o outro é nosso. Vamos ver no que vai dar isso. Estou bem feliz!

Ilana, você consome romances policiais ou séries de TV desse gênero?
Adoro ler e acho sempre superior que o filmado. Leio muito. Vejo várias séries, mas enjoo depois da primeira temporada porque existe bastante repetição na área policial. Muitas se baseiam em casos que já conheço e sei do final, e aí fica sem graça pra mim. Agora, outras séries que não são policiais eu gosto, como Scandal e The affair… outra pegada! Porque na minha hora de lazer é difícil querer ver um crime, né?

E na literatura?
Este ano fiz uma incursão nos brasileiros. Acabei de ler o “Neve Negra”, do Santiago Nazarian, e eu já tinha lido o “Biofobia” dele. Adoro o Raphael Montes, ele é meu amigo, li todos os livros dele e curto! O “Inferno” da Patricia Melo me abriu um mundo de entendimento do tráfico e do morro que vejo hoje muito atual na novela da Glória [Perez], por exemplo. Eu falei do “São Paulo Noir”, mas tem também o “Rio Noir”, com a visão de cada autor brasileiro, tem Rubem Fonseca, tem Verissimo, então, eu curto… A DarkSide lançou um livro que eu e a Gloria escrevemos a capa e que ficamos encantadas, que é o “Bom dia Veronica” (de Andrea Killmore) que tem uma trama que me impactou. A DarkSide lançou agora também o “Meu amigo Dahmer” (de Derf Backderf), que é em quadrinhos e isso abre um novo mundo de possibilidades…

(Imagens: twitter @icasoy, Rogério Christofoletti)

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